Para o rigor dos fatos, não é assim o primeiro, afinal Marina já fez brilhar a ceia de 2024 com a sua presença. Mas se aquele era, sem dúvidas, o nosso primeiro Natal como pais, cheio de desafios particulares, como tentar equilibrar a cadeirinha, os presentes e a bolsa térmica com pratos da ceia no banco de trás de um carro, para a bebê era uma noite como outra qualquer, talvez, um pouco mais agitada do que de costume. Acho justo dizer, que o primeiro Natal de alguém só acontece, quando vem uma consciência mínima da festa. Quando se percebe que o momento vivido não é como os outros. Que existe algo de especial naquele encontro.
Seria possível isso, com 1 ano e 4 meses de idade? Muitos não acreditariam. Mas eles não testemunharam o que eu vi. Vamos então, aos fatos. Para a família, o Natal, desse ano era também um primeiro. Após três décadas revezando entre a ceia do dia 24 na casa da minha avó materna e o almoço do dia 25 (com direito a roda de samba e possibilidade de extensão pela madrugada) na casa da minha avó paterna, um ritual que de tão repetido, dava a impressão de que aconteceria para sempre, a festa desse ano foi na casa dos meus pais. Eles receberiam, pela primeira vez, seus netos: minha filha e o filho da minha irmã. Era o início de uma nova tradição.
Chegamos por lá no dia 21. A casa dos avós da Marina e do Gael, como manda a literatura, fica num sítio. Havia uma árvore com enfeites dourados e a altura aproximada do teto da sala, dois bonecos de neve feitos de pano, do tamanho das crianças e um Papai Noel de 1m20. (Como tudo isso, deixou de ser a decoração de segunda mão de um prédio em Niterói para se transformar no enfeite natalino da casa da minha mãe, com direito a uma escala de dois anos, na minha avó é uma história que daria outra crônica).
Não seria correto, dizer que Papai Noel estava no topo dos interesses da Marina. Ele perdia de longe para a ir a piscina, ouvir histórias no colo da bisa, ou ver as vacas do sítio vizinho atrás da cerca, mas vez ou outra ela repetia o seu “Ai-el”, com alguma empolgação. Como “Ai-el” é também o jeito que ela pronuncia o nome do primo, tínhamos que adivinhar pela entonação ou aguardar até que ela apontasse na direção do que queria. E íamos nós acompanhá-la, enquanto ela fazia carinhos na barba ou tentava derrubar o bom velhinho no chão. Os bonecos de neve, bem mais leves, ela botava facilmente para dançar o “pula, pula pipoquinha”.
Os enfeites fizeram sucesso, com bolas e raminhos carregados de uma purpurina dourada, que ela adorava arrancar da árvore. A purpurina se espalhava nas suas mãos, rostos, barriguinhas, até grudarem de forma irreversível nos pelos do meu corpo, relembrando carnavais passados. Dia 23, meu pai instalou o pisca-pisca, no quintal, em meio a uma tarde chuvosa, com uma ousadia e tensão dignas daquelas comédias americanas em que os vizinhos competem pela decoração natalina. Marina saudou a novidade com entusiasmo: “luzge”, ela clamava, para ligarmos a iluminação.
A família combinou como seria a festa. Ceia e troca de presentes dos adultos no dia 24. Café-da-manhã e abertura dos presentes na árvore para as crianças, no dia 25. Horas antes da ceia, fomos surpreendidos por um pequeno apagão elétrico. Perto das oito, a luz voltou. Marina gritou “luzge”. Minha esposa a vestiu com uma roupa que parecia uma mescla de fantasia de Sininho e árvore de Natal. Ficou a coisa mais linda do mundo. Como o primo Gael dorme cedo, Marina foi a única bebê a comparecer na festa. Demos o seu jantar e em seguida, começamos a troca de presentes. Era para ser apenas entre os adultos, mas ela fez questão de abrir cada uma das embalagens. E de calçar o tênis da tia. E de vestir a camisola nova da avó.
Por volta das dez, ela, ainda acordada e totalmente bem alimentada em sua janta, viu a mesa posta para a ceia. Gritou “coo-mer”. E sentou-se na cadeirinha e se pôs a atacar a farofa e o chester. Veio a oração, depois o brinde. Eu e Doroteia brindamos na frente dela, praticamente todos os finais de semana e algumas quartas-feiras mais difíceis, mas era primeira vez que Marina notava um brinde. Gritou “ton-tem”, e ninguém entendeu nada, até que arriscamos uma tradução. Tim-Tim? Ela riu e brindamos de novo, incluindo a aguinha dela. Marina gritou: “Tom-tem”. E todos brindaram mais uma vez. “Tom-tem”. E ficamos nessa, mais umas sete ou oito vezes.
Marina foi dormir as onze. Exaustos, nós, os pais, fizemos o mesmo. No dia seguinte, tivemos a abertura de presentes entre as crianças. E claro, cada um apreciou mais o brinquedo que o outro ganhou. No almoço, as sobras da ceia, estiveram ainda mais gostosas. Depois, veio a piscina, novas visitas, e assim, se foi o Natal.
Alguns dias depois, resolvi mostrar à Marina toda a mágica de um tocador de CDs. Fomos ouvir “Borboleta”, uma música da Marisa Monte, que ela já conhecia. É aquela da “Borboleta pequenina, lálálá... venha ver cantar o hino que hoje é noite de Natal.” Ao ouvir a palavra Natal, Marina se acendeu. Começou a gritar “Tal”, “Tal” e a correr pela casa, até chegar na árvore. Então, repetiu a palavra outras vinte vezes, com uma alegria cada vez maior. Como duvidar que ela entendia o seu significado?
