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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
O PRIMEIRO NATAL?
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
MARINA E O MAR
Não foi um encontro planejado. Minha mulher e eu fomos ao aniversário de uma amiga em um quiosque, na praia de Copacabana. Temos em casa, algumas opções de roupas de banho para bebês: fralda de piscina, baby biquinis, um traje completo de mangas compridas com suposta proteção contra raios ultravioleta. Mas não levamos nada disso. Eram muitos e se... que precisaríamos percorrer até darmos um mergulho em família. E se a praia não estiver muito cheia. E se o sol não estiver muito forte. E se a onda não estiver muito alta. Pelo sim, pelo não, colocamos sunga e biquini por baixo da roupa e partimos para Copacabana, sem grandes expectativas.
A primeira descoberta da Marina foi a areia. Na beira do quiosque, na parte sombreada da praia, ela se divertia demolindo os montes que construíamos com seu baldinho. Sujando todo o seu vestido de festa, ela balançava as pernas e os braços, em uma alegre coreografia, enquanto nossos olhos vigilantes se certificavam de que ela não iria confundir aquela fartura de grãos com a amada farofinha dos seus almoços.
Doroteia, a mãe, foi a primeira a manifestar seu desejo de mar. Não entramos na água salgada desde que Marina nasceu. Pensando bem, um pouquinho mais. Pelas minhas contas tem pelo menos um ano e meio de jejum. Tempo demais para um nascido e criado em Angra dos Reis (meu caso), ou para quem passou boa parte da infância e a adolescência em Ipanema (caso dela). Como estávamos em praia carioca, a saudade dela era maior.
__ Vai lá. Eu olho a Marina.
__ Ah, vamos nós três.
Eu, sempre o botafoguense da relação, repliquei com uma mescla de pessimismo e preguiça.
__ E se estiver puxando muito. A gente vai lá, à toa?
__ É. A gente vai lá à toa e volta.
O argumento bastou para que as roupas fossem tiradas e as carteiras e os celulares devidamente guardados no quiosque. Iniciamos nossa caminhada com Marina até a beira do mar. Nada de baby biquini, traje anti-UV, fraldinha especial impermeável. Ela foi de fralda normal mesmo, no impulso do nosso improviso. Durante o trajeto, os e se... pensados anteriormente foram caindo um a um. O sol estava ameno, a praia transitável, as ondas quase domesticadas. Sentamos com Marina na parte úmida da areia, a última linha da água, no ponto onde a espuma gelada costuma tocar os pés dos banhistas indecisos. Então, esperamos.
A onda quebrou lá na frente, a água começou a penetrar a areia devagar, será que chega até aqui? Chegou. Molhou os pés e as pernas da Marina. Ela deu um grito imediato de felicidade. O mar recuou e assim que ela sentiu a terra seca, começou a pedir “mais”, “mais”. E na fala própria dela mar e mais viraram uma palavra só. Outra onda quebrou lá na frente, a água dessa vez veio mais fraca, uma fina camada embaixo de nós. Mas bastou para provocar nela um sorriso. Na seguinte, aconteceu o contrário. O mar molhou toda a barriquinha da bebê, chegou na fronteira do peito. Ela sacudiu todo o corpo com a maior alegria do mundo. Entre as muitas sensações experimentadas naquela tarde, o sabor do sal, o gelado da água, a textura da areia, era essa que faltava: a surpresa da onda.
Acostumado a uma baía de águas tranquilas, não tenho uma boa relação com a imprevisibilidade das ondas. O mar, para mim, sempre foi lugar de permanecer. De deitar o corpo, com os braços abertos, os olhos voltados para o céu e deixar a água abafar todos os sons do mundo. Boiar é a melhor forma de não pensar em nada. Batizada na praia de Copacabana, gargalhando com os repuxos do oceano Atlântico, acredito que Marina vai seguir mais o caminho da mãe. Vai querer aprender a pegar jacarés e a furar ondas. Gostar de um mar que surpreenda e não te deixa descansar. Bem, ainda resta uma tentativa. O próximo batismo deve ser em Angra. Quem sabe, ela não ame cada mar a sua maneira: o que dança e o que medita. Seu nome, afinal, não foi escolhido por acaso. É o início de uma história que promete muitos capítulos. Marina e o mar.
terça-feira, 28 de outubro de 2025
A PRIMEIRA RIMA
Espremida entre o meu colo e a grade da janela, Marina se agita. Olha para baixo e grita: ruuuua. Uma, duas, três vezes. Depois olha para cima e ergue o dedo na direção do céu, aponta para noite. Então, diz: luuuuua. Aguardo para ter certeza de que são mesmo termos diferentes. Como sabe qualquer leitor do Maurício de Souza, “r” e “l” estão entre os mais traiçoeiros fonemas infantis. Ela repete as palavras. Lua olhando para cima. Rua olhando para baixo. Não há mais dúvidas. Marina fez sua primeira rima.
Do alto do seu um ano e dois meses, já é uma conhecedora desses dois substantivos. A rua, ela aprendeu primeiro. Ora diz apontando para janela, ora para a porta. Essa descoberta ainda me impressiona. Como ela percebeu que o lugar que observa de cima é o mesmo canto onde passa sacolejando com seu carrinho? Ambos, são tão diferentes para os sentidos, não oferecem a mesma vista, os mesmos sons, os mesmos cheiros. Ainda assim, ela notou que se trata do mesmo espaço, acessível por dois caminhos distintos: a porta e a janela.
A lua veio um pouco depois. Não moramos em uma cidade propícia a sair a noite com crianças. Foi uma daquelas luas precoces, que surgem por volta das cinco da tarde. A mãe apontou, ela repetiu. Alguns dias depois, aconteceu de novo no meu colo na porta de um bar, em um aniversário que se estendeu demais, diante de uma crescente. Por fim, repetiu o nome ao ver a lua desenhada em uma página de livro.
A associação feita na janela era inédita. Dizer palavras soltas, tudo bem, mas assim em sequência e ainda combinando sons e sentidos... Na qualidade de pai, sou por óbvio, suspeito para falar, mas não é um feito e tanto para um bebê? Uns anos atrás, enquanto trabalhava no roteiro para uma série documental sobre Noel Rosa, aprendi com o músico e pesquisador de linguística Luiz Tatit, que mais do que fazer uma canção funcionar, a rima tem a função de associar dois significados. Pense em “amor” e “dor” que aparecem juntos incontáveis vezes ou “andaime” e “Van Damme”, uma única vez, por responsabilidade dos Mamonas Assassinas.
As rimas ocupavam um papel fundamental nas culturas orais. Eram uma ferramenta importante para memorização dos conhecimentos, quando a maioria da população ignorava a escrita. Muitas histórias eram compostas em rimas e também os textos filosóficos e religiosos. Não havia distinção entre profetas e poetas. Ao ver a rima brotar espontânea na fala da minha filha, é natural que eu pense nela como uma forma de presságio. Um sinal para uma canção futura. A lua e a rua... Que papel cada uma terá na sua vida?
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Os Calundus de Capitu
Machado escrevia livros curtos, para não escolher palavras à toa.Se um termo fora do seu repertório habitual surgisse em um dos seus textos, decerto haveria um bom motivo para isso. Em geral, ele utilizava um português elegante e canônico, talvez mais antigo do que sua própria época, repleto de referências da cultura clássica: Dante, Shakespeare, gregos e romanos. Uma linguagem apropriada para seus narradores: homens da elite, de talento limitado, que pensavam ser mais eruditos do que eram na realidade. A fala da rua, marcante em Aluísio de Azevedo, Lima Barreto, João do Rio, não aparecia nele com muita frequência. Desconheço se alguém já fez um estudo sobre a quantidade de termos de origem africana, tão comuns na fala brasileira, utilizados em sua obra. Mas desconfio que não fossem muitos.
Assim, a palavra, quando surge em meio a leitura, chama a atenção, como um continente que desponta em pleno mar. Estamos em Dom Casmurro, nas últimas linhas do capítulo quarenta e seis, ainda no primeiro terço do romance, quando os protagonistas começavam a passar da amizade infantil ao flerte da puberdade. Bentinho e Capitu se reconciliavam após uma discussão boba de adolescentes. Eis o trecho:
O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si, e pedíamos reciprocamente perdão. Capitu alegava a insônia, a dor de cabeça, o abatimento do espírito, e finalmente "os seus calundus”.
Machado não utilizava palavras à toa. Tampouco as aspas. Havia uma razão para que, ao contrário da insônia, da dor de cabeça e do abatimento do espírito, que poderiam ser expressões típicas do narrador, o Bentinho velho e amargurado, os calundus aparecessem destacados das outras palavras, como se pudessem ser ditos apenas por Capitu.
Recorramos ao dicionário. Há duas definições para os nossos calundus. 1) “Estado de ânimo caracterizado por mau humor e irritabilidade, e claramente manifestado pelo comportamento.” 2) “Celebrações de caráter religioso, acompanhadas de canto, dança, batuque e que geralmente representavam um pedido ou consulta a divindades ou entidades sobrenaturais.” A etimologia diz que o termo tem origem no quimbundo, idioma falado em Angola, pelo povo banto, que nomeou outras preciosidades como dengo e cafuné.
A palavra percorre, no Brasil, um caminho interessante. Seu sentido original, o das cerimônias religiosas se diluiu em dois termos, quase opostos. “Lundu”, vai designar a dança, o ritmo musical e as celebrações. A parte festiva do rito. E “calundus” o estado de espírito melancólico e aborrecido, talvez adequado a alguém que estivesse precisando de uma boa reza.
A semente de um nome acrescenta nuances ao seu significado. Afirmar que uma pessoa está com calundus é diferente de apenas dizer que ela está triste ou irritada. O termo traduz uma condição mais específica. Nos faz pensar em alguém diante de uma encruzilhada, que carrega dúvidas difíceis de explicar, ao mesmo tempo de natureza existencial e espiritual. É uma boa razão para que os “calundus” apareçam no livro, justo na fala de Capitu. Poderia haver melhor palavra para definir a introspecção de uma alma oblíqua, que nos observa com olhos profundos, capazes de nos arrastar para o fundo, como a ressaca do mar?
Mas pode ser que haja outra explicação para o fato de Capitu usar uma palavra banta. Observe como Machado descrevia a aparência da personagem, através do olhar adolescente de Bentinho:
Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo.
Sem dúvida, são traços mestiços. Há a boca fina e os olhos claros (mas jamais descritos como “verdes”, como tantas vezes foram retratados em capas de livros e adaptações audiovisuais, talvez por remeter a cor do mar, nos “olhos de ressaca”). Mas também uma pele “morena” e cabelos grossos, que reaparecem mais adiante, em uma das cenas mais conhecidas do livro, quando Bentinho vai penteá-los e o emaranhado conduz ao primeiro beijo do casal. Noutros trechos, quando o autor descreve algum enrubescer de Capitu, jamais compara sua cor à tonalidade europeia das maçãs ou dos morangos, mas ao marrom-avermelhado das pitangas tropicais.
Os traços mais brancos de Capitu vinham da mãe, Fortunata, de quem Machado diz apenas que era “alta, forte, cheia” e que tinha os olhos claros e a boca iguais aos da filha. Sobre o pai, Pádua, não há uma descrição física específica, apenas uma referência feita de forma cifrada, em um diálogo entre Bentinho e o mexeriqueiro, José Dias, o desagradável agregado da família Santiago. José Dias adverte a Bentinho, que ele não deveria mais ser visto andando, com Pádua pela rua. E diz:
“Quando era mais jovem; era criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança.”
A trama se passa no Rio de Janeiro, em meados do século XIX. Um momento em que a imensa maioria da mão de obra, seja livre ou escravizada, era negra, José Dias acha desnecessário explicar porque o pai de Capitu poderia ser confundido com um criado. Por essa lógica, Capitu seria filha de um pai negro e uma mãe branca, o inverso do padrão de relações inter-raciais mais comuns no Brasil daquela. Outra notável exceção era, claro, o próprio Machado, filho de uma lavadeira portuguesa e de um pintor de paredes negro.
Não são os únicos pontos em comum entre os dois. Ambos nasceram pobres, foram vizinhos e agregados de uma família rica, eram donos de uma intensa vontade de saber, que ao mesmo tempo, os aproximava e diferenciava da elite que detinha o acesso a esses conhecimentos, mas que tão pouco sabia o que fazer com aquilo.
“As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de vária espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo. No colégio onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, francês, doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quis que prima Justina lhe ensinasse. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre, depois de lhe propor gracejando, acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. Em compensação, quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai.”
Um dos temas centrais de “Dom Casmurro” são as semelhanças inexplicáveis. Das muitas que aparecem no romance, pouco se foi escrito e falado sobre as que existem entre o autor e sua protagonista feminina. Seriam conscientes? Os calundus eram uma marca de origem, uma pista deste elo, deixada para a posteridade? Ou se manifestaram como uma força subterrânea em meio ao processo de escrita? Machado não escolhia palavras à toa. Mas poderia ter os seus lapsos. E, por que não, seus calundus.
quarta-feira, 11 de junho de 2025
AULAS DE NARRATIVA COM UM BEBÊ
Ao longo desses anos trabalhando com escrita, li uma quantidade razoável de textos que prometiam ensinar ou, pelo menos, aprimorar o ofício de contar histórias. De tratados filosóficos de 2500 anos, como a Poética de Aristóteles, até manuais de autoajuda para escritores desiludidos. Alguns conselhos quase sempre se repetem. Recomenda-se escrever sobre o que se conhece. Que uma história deve ter uma ação principal clara, conflitos, pontos de virada e catarses cheias de significados. Um personagem deve ser definido por suas ações, ter suas intenções atrapalhadas por obstáculos, descobrir que o que ele quer não é o mesmo que ele precisa. E, ao final, transformar-se.
Essas leituras trazem algumas desvantagens, como uma perda inevitável de espontaneidade, um risco de padronização, uma sensação de que você está tentando aprender a jogar futebol, decorando cada uma das regras do esporte. Mas há, claro, vantagens, amplamente divulgadas nas orelhas de cada manual de roteiro. Compreender melhor o funcionamento e as normas do seu ofício. Descobrir os caminhos consagrados, com seus atalhos e pontos de fugas. Entender a narrativa como um tipo de trabalho, uma habilidade em constante desenvolvimento. Você sempre pode aprender a contar melhor uma história.
Desde os primeiros meses como pai, passei a ler histórias para a minha filha. Normalmente, escolho livros voltados para crianças um pouco mais velhas. Agora, por exemplo, acabamos de começar “Crime Castigo” e... Brincadeira. Mas Marina, em geral, se interessa mais por livros com enredos do que os que teoricamente estariam destinados a sua faixa etária (livrinhos de pano ou borracha compostos por ilustrações acompanhadas de descrições simples, de bichos da fazenda “essa é a vaca”, criaturas marinhas “esse é o polvo”, dinossauros “esse é o velociraptor”...) Seus favoritos são: “Gildo” e “Cachorros não dançam balé”, recomendados para crianças entre 4 e 8 anos.
Tal preferência é, para mim, um mistério, já que, aos dez meses, não é esperado que ela compreenda tramas, ou mesmo as palavras que formam uma história. Ainda assim, enquanto viro as páginas e pronuncio as frases com diferentes entonações de voz, seus olhinhos acompanham tudo com atenção, ela emite ruídos, bate palmas, e, de vez em quando, aponta as figuras. Como será que isso é possível? O que um bebê entende, quando escuta uma história?
“Cachorros não dançam balé”, da americana Anna Kemp conta a saga de Filé, um simpático pug que sonha em brilhar nos palcos com a bela arte dos pliés e piruettes. O livrinho tem vários personagens, como uma menina solidária, um pai distraído, uma professora pernóstica, uma velha perdida na plateia. Um prato cheio para pais que fizeram teatro na adolescência.
A cada leitura, Marina parece perceber algo diferente. As vezes gosta de apontar a menina, em outras prefere o protagonista, Filé. Ou decide ignorar Filé, quando sua presença é evidente, mas nas páginas em que ele aparece disfarçado, escondido atrás de um jornal ou de uma mala, ela observa por um longo tempo, com a sobrancelha franzida de concentração até encontrar o cãozinho e explodir de alegria. Há também momentos em que ela presta atenção em detalhes aleatórios, como os instrumentos musicais, ou uma bolsa que se repete em algumas cenas. Um gato preto que surge em uma breve figuração é apontado todas as vezes, talvez por associação com a gata da família, a longeva Ivi Brussel. Ela também gosta de folhear as páginas, sem que eu diga nada, apenas admirar formas e cores, em ordens variadas. Ou o contrário, eu digo as falas longe do livro e ela abre um sorriso e começa a divagar com os olhos, talvez reconstituindo as cenas na sua imaginação.
Os manuais de narrativa, em geral, se concentram na forma, na identificação de estruturas que se parecem, em mostrar como as diferentes histórias podem ser a mesma coisa. Marina faz o contrário. Enquanto acompanha uma trama, sem entender suas frases, ela revela como uma mesma história pode ser uma infinidade de coisas diferentes. A cada dia com meu bebê aprendo que contar uma história não envolve apenas enredo, personagens e conflitos. É também uma sucessão de cores, formas e entonações. Um jogo livre de descobertas que se renovam. É tudo o que existe além das palavras. Um bater de palmas, um sorriso de espanto, um gritinho, uma irresistível sobrancelha franzida de concentração.
sábado, 3 de maio de 2025
A PRIMEIRA GRIPE
Tem uma cena famosa no “Godfellas”, o filme que inventou o jeito Martin Scorsese de fazer filmes de máfia, em que o aspirante a gângster, ainda adolescente, dá um vacilo e é preso pela primeira vez. No dia do julgamento, seus comparsas aparecem. Ao invés de ameaças e reprimendas, o garoto recebe felicitações e tapinhas nas costas de um sorridente Robert De Niro. O recado era claro. Para quem seguia aquele caminho, a prisão era inevitável. Não era uma questão de se, mas de quando iria acontecer. Parte do seu valor como bandido estava na forma como você atravessava esse calvário. A cadeia era um rito de passagem.
“Godfellas” foi um dos poucos filmes que vimos no mês passado, dividido em duas parcelas de 1 hora dos cochilos vespertinos da Marina. A cena ressurgiu na minha cabeça, dias depois, quando enfrentamos um difícil rito de passagem do mundo dos pais: a primeira gripe do bebê.
Começou no feriado de Páscoa, a mãe teve tosse e febre no sábado. A bebê teve tosse e febre no domingo. Passou a segunda e terça-feira meio amuada, melhorando com tylenol. Na quarta, amanheceu sem febre, brincando, dando estridentes gritos de alegria ao atacar seu feijão com carne moída na hora do almoço. Mas tal qual o Botafogo no Brasileirão de 2023, o acender da esperança serviu apenas para intensificar a dor da desolação. Na quarta à noite, o termômetro marcava 39.4. O tylenol parecia não fazer mais efeito.
Nossa bebê engatinha correndo, escala móveis, dialoga com gritos de diferentes tonalidades, toca seu chocalho e se balança toda, quando escuta “Tambor”, samba-enredo do Salgueiro de 2009. Mas naquela noite, Marina parecia retornar as suas primeiras semanas de vida. Não queria comer, só mamar. O seu variado repertório de sílabas e ruídos foi trocado por um choro enfraquecido. Ela mal conseguia se mexer. Movia apenas os olhos, para expressar sua dor e nos encarar com muda perplexidade. Por quê?
Entre choros, lavagens de soro e um termômetro que teimava em subir com sua precisão implacável, fomos assombrados pelos fantasmas das decisões passadas. Um multiverso particular de pequenas ações que, em meio ao nosso desespero, pareciam ter o poder de evitar a gripe. Se não tivéssemos viajado, se não tivéssemos ido a piscina, se tivéssemos usado máscaras, se o outono não tivesse substituído o verão. Depois, foi a vez de um passado mais remoto nos atormentar. Eu tive incontáveis crises de rinite e sinusite ao longo da vida. Dizem que todos encontram sua própria história contada em algum verso de Caetano. Para mim, sempre foi “gente quer respirar ar pelo nariz”. Para completar, minha esposa é asmática. Nossa genética lançava uma sombra sinistra a cada espirro da nossa filha.
Perto das quatro horas da manhã, a febre voltou a romper os 39 graus. A pediatra estava marcada para as onze horas. Não conseguimos esperar. Chamamos um uber e fomos até à emergência. Na hora da consulta, a febre havia baixado um pouco. Marina estava ativa o suficiente para agarrar o estetoscópio da médica. Nossas dúvidas foram sanadas. “O pulmãozinho dela está limpo?” Estava. “Há risco de convulsão com a febre alta?” “A criança que tem tendência a ter convulsão, passa mal até com 37,5.” “E como a gente sabe se ela tem tendência a ter convulsão?” “Vocês só vão saber se ela tiver”. Muito tranquilizador. Por fim, a pergunta definitiva. “O que ela tem?” Marina fez o teste de Influenza e deu positivo. Gripe clássica. A bebê chorou, clamando pela mãe. Fiz quase a mesma coisa, mas por WhatssApp.
Voltamos para casa, fechamos os olhos por algumas horas e às onze estávamos na pediatra. Resfriados ou viroses são marcados pela incerteza, podem ser causados por uma infinidade de vírus de muitos nomes. Em geral o tratamento é fortalecer o corpo e esperar passar. Mas para a gripe tem um remédio específico. Já era um começo. Minha mãe foi para nossa casa, nos recebeu com o almoço. Ajudou a cuidar da neta (e de mim), enquanto minha mulher tentava descansar um pouco para se recuperar da própria gripe e eu dava um jeito de ajeitar minha cabeça e trabalhar por algumas horas.
O remédio fez efeito, o catarro foi posto para fora. A febre se tornou mais rara e mais baixa. No dia seguinte, minha mãe podia voltar para casa. Na calçada, enquanto aguardávamos meu pai, conversamos. “Primeira gripe, é foda.” “É meu filho, não vai ser a última.” A consciência de que uma dor é inevitável nem sempre basta para diminuir sua aflição. Cada sinal de retorno à normalidade da minha filha: um sorriso, um apetite, uma estripulia era festejado como se ocorresse pela primeira vez. Dias depois para comemorar sua cura, Marina virou todo o cesto de brinquedos sobre o seu corpo.
A prisão em “Godfellas” não parece ser um lugar tão duro. Claro que é um filme de Hollywood e aqueles personagens ocupam cargos privilegiados da máfia. Mas há um certo de ar de colônia de férias. Eles jogam cartas, contam piadas, fumam charutos, bebem vinho e uísque, preparam bifes gigantescos e macarrões com molhos intermináveis com o alho em tiras finíssimas cortadas com lâmina de barbear. Parece mais uma desculpa para aqueles homens ficarem entre si, longe de suas mulheres e filhos. Eles não sabem nada da vida.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
BEM AMIGOS DO CINEMA BRASILEIRO
Quando eu era um jovem e intrépido universitário, há mais ou menos uns 15 anos, tive uma coluna num blog que se chamava “Crítica de cinema do Galvão”. Acaso o título não seja auto-explicativo o suficiente, desenvolvo por aqui. Eram resenhas de filmes publicadas por um Galvão Bueno imaginário. As críticas imitavam a verborragia, as expressões e o ufanismo invencível do narrador do tetra e do penta. Eram sempre variações de uma mesma piada. Eu pegava um filme estrangeiro festejado pela crítica e esculhambava, comparando a um similar nacional, que teria feito a mesma coisa, só que melhor.
Um dos meus textos favoritos comentava o filme argentino “Segredo dos seus Olhos”, vencedor do oscar de melhor filme estrangeiro de 2010. Galvão, claro, ficou uma arara. “E argentino sabe lá fazer filme de ditadura que nem a gente? Por acaso, eles já botaram o Agostinho Carrara para sequestrar o embaixador americano com ajuda do Rui e da Vani?” A referência era sobre o filme “O Que é isso companheiro?”, de Bruno Barreto, baseado no livro de Fernando Gabeira.
Um drama tenso e bem executado sobre uma ousada ação da guerrilha durante a ditadura militar, que contava com algumas escolhas de casting pouco ortodoxas. Tinha Pedro Cardoso no papel de um guerrilheiro (Gabeira) e Lulu Santos como um delegado de polícia. Hoje um tantinho esquecido, o filme concorreu ao Oscar, em 1998. Entrou na condição de favorito, com transmissão em clima de Copa mostrando os atores reunidos no Canecão. Pelo menos, rendeu um chilique anti-imperialista, ao vivo do Arnaldo Jabor, que comentava o evento na Globo. Não foi dessa vez, Brasil.
Ingressei na faculdade de Comunicação Social pela UnB em 2006. Era um período de mudanças profundas no audiovisual. Quando eu entrei na faculdade, os alunos que estavam lá, sonhavam no dia em que filmariam em película. No meu último ano, os calouros que entravam faziam plano de carreira para serem youtubers. O curso de audiovisual tinha um apego, para alguns: justo, para outros: exagerado, ao Cinema Novo. A coluna do Galvão foi inspirada em um professor que, ao ouvir os alunos reclamando da overdose de Glauber e Nelson Pereira dos Santos, costumava responder. “Vocês vão aprender mais assistindo a um filme brasileiro ruim, do que a um filme americano bom.” Ele, claro, era inglês.
Oficialmente, eu achava a frase absurda. Como estudar cinema sem “Cantando na Chuva”, “Pulp Fiction” ou “Poderoso Chefão”? Mas havia uma parte de mim que concordava. Afinal, toda paródia que se preze é, no fundo, uma homenagem sincera. Fui muito feliz nas madrugadas do Canal Brasil. Aprendi a ignorar as filmagens mambembes, as cenas de nudez inexplicáveis, os diálogos que pareciam dublados e que podiam oscilar entre a telenovela e o teatro de vanguarda. Apreciava as dores e delícias do nosso cinema, pelo simples fato de ser nosso.Porque nós somos o olhar de desespero tarado do Peréio, o sorriso de deboche da Leila Diniz, os cangaceiros giratórios do Glauber, o andar de tigresa da Sônia Braga, a bunda do José Wilker descendo o Pelourinho, cada um dos convidados do Baile do Bené, a Fernanda Montenegro catando feijão para o almoço do dia seguinte, o Grande Otelo recém-parido no chão da oca, gritando unhéee.
Domingo, durante a transmissão do Oscar, na torcida por Fernanda Torres e por “Ainda Estou Aqui”, pretendo reencarnar meu antigo personagem. Vou dizer coisas como: “Bem amigos do cinema brasileiro. Haja coração! Hoje, enfrentamos um velho adversário: a França. Após se cansarem de fazer filmes que mais parecem uma partida de futebol com 90 minutos de comentários ininterruptos do meu amigo Casagrande, os franceses foram ardilosos. Fizeram o que fazem sempre. Roubaram os talentos dos outros países para brigarem pela taça. Mesmo que Emília Pérez pareça mais uma trama requentada de outra Perez, a nossa Glória, eles chegam com pinta de favoritos. De um lado, temos Jacques Audiard e todo o poderio da Netflix. Do outro, o nosso Waltinho Salles, apenas um rapaz latino americano, sem din... Bem, o resto da música não combina tanto assim. Mas eu confio na virada e na estrela solitária de Waltinho. E nossa Ferrrrnanda Torres. Irá desbancar as estrelas de Hollywood e sambar na apoteose do cinema, ao som do Rappa cantando Vapor Barato?”
Bora Brasil, que dessa vez o caneco é nosso.
O PRIMEIRO NATAL?
Para o rigor dos fatos, não é assim o primeiro, afinal Marina já fez brilhar a ceia de 2024 com a sua presença. Mas se aquele era, sem dúv...
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