Não foi um encontro planejado. Minha mulher e eu fomos ao aniversário de uma amiga em um quiosque, na praia de Copacabana. Temos em casa, algumas opções de roupas de banho para bebês: fralda de piscina, baby biquinis, um traje completo de mangas compridas com suposta proteção contra raios ultravioleta. Mas não levamos nada disso. Eram muitos e se... que precisaríamos percorrer até darmos um mergulho em família. E se a praia não estiver muito cheia. E se o sol não estiver muito forte. E se a onda não estiver muito alta. Pelo sim, pelo não, colocamos sunga e biquini por baixo da roupa e partimos para Copacabana, sem grandes expectativas.
A primeira descoberta da Marina foi a areia. Na beira do quiosque, na parte sombreada da praia, ela se divertia demolindo os montes que construíamos com seu baldinho. Sujando todo o seu vestido de festa, ela balançava as pernas e os braços, em uma alegre coreografia, enquanto nossos olhos vigilantes se certificavam de que ela não iria confundir aquela fartura de grãos com a amada farofinha dos seus almoços.
Doroteia, a mãe, foi a primeira a manifestar seu desejo de mar. Não entramos na água salgada desde que Marina nasceu. Pensando bem, um pouquinho mais. Pelas minhas contas tem pelo menos um ano e meio de jejum. Tempo demais para um nascido e criado em Angra dos Reis (meu caso), ou para quem passou boa parte da infância e a adolescência em Ipanema (caso dela). Como estávamos em praia carioca, a saudade dela era maior.
__ Vai lá. Eu olho a Marina.
__ Ah, vamos nós três.
Eu, sempre o botafoguense da relação, repliquei com uma mescla de pessimismo e preguiça.
__ E se estiver puxando muito. A gente vai lá, à toa?
__ É. A gente vai lá à toa e volta.
O argumento bastou para que as roupas fossem tiradas e as carteiras e os celulares devidamente guardados no quiosque. Iniciamos nossa caminhada com Marina até a beira do mar. Nada de baby biquini, traje anti-UV, fraldinha especial impermeável. Ela foi de fralda normal mesmo, no impulso do nosso improviso. Durante o trajeto, os e se... pensados anteriormente foram caindo um a um. O sol estava ameno, a praia transitável, as ondas quase domesticadas. Sentamos com Marina na parte úmida da areia, a última linha da água, no ponto onde a espuma gelada costuma tocar os pés dos banhistas indecisos. Então, esperamos.
A onda quebrou lá na frente, a água começou a penetrar a areia devagar, será que chega até aqui? Chegou. Molhou os pés e as pernas da Marina. Ela deu um grito imediato de felicidade. O mar recuou e assim que ela sentiu a terra seca, começou a pedir “mais”, “mais”. E na fala própria dela mar e mais viraram uma palavra só. Outra onda quebrou lá na frente, a água dessa vez veio mais fraca, uma fina camada embaixo de nós. Mas bastou para provocar nela um sorriso. Na seguinte, aconteceu o contrário. O mar molhou toda a barriquinha da bebê, chegou na fronteira do peito. Ela sacudiu todo o corpo com a maior alegria do mundo. Entre as muitas sensações experimentadas naquela tarde, o sabor do sal, o gelado da água, a textura da areia, era essa que faltava: a surpresa da onda.
Acostumado a uma baía de águas tranquilas, não tenho uma boa relação com a imprevisibilidade das ondas. O mar, para mim, sempre foi lugar de permanecer. De deitar o corpo, com os braços abertos, os olhos voltados para o céu e deixar a água abafar todos os sons do mundo. Boiar é a melhor forma de não pensar em nada. Batizada na praia de Copacabana, gargalhando com os repuxos do oceano Atlântico, acredito que Marina vai seguir mais o caminho da mãe. Vai querer aprender a pegar jacarés e a furar ondas. Gostar de um mar que surpreenda e não te deixa descansar. Bem, ainda resta uma tentativa. O próximo batismo deve ser em Angra. Quem sabe, ela não ame cada mar a sua maneira: o que dança e o que medita. Seu nome, afinal, não foi escolhido por acaso. É o início de uma história que promete muitos capítulos. Marina e o mar.

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