sábado, 3 de maio de 2025

A PRIMEIRA GRIPE

 



Tem uma cena famosa no “Godfellas”, o filme que inventou o jeito Martin Scorsese de fazer filmes de máfia, em que o aspirante a gângster, ainda adolescente, dá um vacilo e é preso pela primeira vez. No dia do julgamento, seus comparsas aparecem.  Ao invés de ameaças e reprimendas, o garoto recebe felicitações e tapinhas nas costas de um sorridente Robert De Niro. O recado era claro. Para quem seguia aquele caminho, a prisão era inevitável. Não era uma questão de se, mas de quando iria acontecer.  Parte do seu valor como bandido estava na forma como você atravessava esse calvário. A cadeia era um rito de passagem. 

“Godfellas” foi um dos poucos filmes que vimos no mês passado, dividido em duas parcelas de 1 hora dos cochilos vespertinos da Marina. A cena ressurgiu na minha cabeça, dias depois, quando enfrentamos um difícil rito de passagem do mundo dos pais: a primeira gripe do bebê. 

Começou no feriado de Páscoa, a mãe teve tosse e febre no sábado. A bebê teve tosse e febre no domingo. Passou a segunda e terça-feira meio amuada, melhorando com tylenol. Na quarta, amanheceu sem febre, brincando, dando estridentes gritos de alegria ao atacar seu feijão com carne moída na hora do almoço. Mas tal qual o Botafogo no Brasileirão de 2023, o acender da esperança serviu apenas para intensificar a dor da desolação. Na quarta à noite, o termômetro marcava 39.4. O tylenol parecia não fazer mais efeito.

Nossa bebê engatinha correndo, escala móveis, dialoga com gritos de diferentes tonalidades, toca seu chocalho e se balança toda, quando escuta “Tambor”, samba-enredo do Salgueiro de 2009. Mas naquela noite, Marina parecia retornar as suas primeiras semanas de vida. Não queria comer, só mamar. O seu variado repertório de sílabas e ruídos foi trocado por um choro enfraquecido. Ela mal conseguia se mexer. Movia apenas os olhos, para expressar sua dor e nos encarar com muda perplexidade. Por quê?

Entre choros, lavagens de soro e um termômetro que teimava em subir com sua precisão implacável, fomos assombrados pelos fantasmas das decisões passadas. Um multiverso particular de pequenas ações que, em meio ao nosso desespero, pareciam ter o poder de evitar a gripe. Se não tivéssemos viajado, se não tivéssemos ido a piscina, se tivéssemos usado máscaras, se o outono não tivesse substituído o verão. Depois, foi a vez de um passado mais remoto nos atormentar. Eu tive incontáveis crises de rinite e sinusite ao longo da vida. Dizem que todos encontram sua própria história contada em algum verso de Caetano. Para mim, sempre foi “gente quer respirar ar pelo nariz”. Para completar, minha esposa é asmática. Nossa genética lançava uma sombra sinistra a cada espirro da nossa filha.

Perto das quatro horas da manhã, a febre voltou a romper os 39 graus. A pediatra estava marcada para as onze horas. Não conseguimos esperar. Chamamos um uber e fomos até à emergência. Na hora da consulta, a febre havia baixado um pouco. Marina estava ativa o suficiente para agarrar o estetoscópio da médica. Nossas dúvidas foram sanadas. “O pulmãozinho dela está limpo?” Estava. “Há risco de convulsão com a febre alta?” “A criança que tem tendência a ter convulsão, passa mal até com 37,5.” “E como a gente sabe se ela tem tendência a ter convulsão?”  “Vocês só vão saber se ela tiver”. Muito tranquilizador. Por fim, a pergunta definitiva. “O que ela tem?”  Marina fez o teste de Influenza e deu positivo. Gripe clássica. A bebê chorou, clamando pela mãe. Fiz quase a mesma coisa, mas por WhatssApp. 

Voltamos para casa, fechamos os olhos por algumas horas e às onze estávamos na pediatra. Resfriados ou viroses são marcados pela incerteza, podem ser causados por uma infinidade de vírus de muitos nomes. Em geral o tratamento é fortalecer o corpo e esperar passar. Mas para a gripe tem um remédio específico. Já era um começo. Minha mãe foi para nossa casa, nos recebeu com o almoço. Ajudou a cuidar da neta (e de mim), enquanto minha mulher tentava descansar um pouco para se recuperar da própria gripe e eu dava um jeito de ajeitar minha cabeça e trabalhar por algumas horas.

O remédio fez efeito, o catarro foi posto para fora. A febre se tornou mais rara e mais baixa. No dia seguinte, minha mãe podia voltar para casa. Na calçada, enquanto aguardávamos meu pai, conversamos. “Primeira gripe, é foda.” “É meu filho, não vai ser a última.”  A consciência de que uma dor é inevitável nem sempre basta para diminuir sua aflição. Cada sinal de retorno à normalidade da minha filha: um sorriso, um apetite, uma estripulia era festejado como se ocorresse pela primeira vez. Dias depois para comemorar sua cura, Marina virou todo o cesto de brinquedos sobre o seu corpo.

A prisão em “Godfellas” não parece ser um lugar tão duro. Claro que é um filme de Hollywood e aqueles personagens ocupam cargos privilegiados da máfia. Mas há um certo de ar de colônia de férias. Eles jogam cartas, contam piadas, fumam charutos, bebem vinho e uísque, preparam bifes gigantescos e macarrões com molhos intermináveis com o alho em tiras finíssimas cortadas com lâmina de barbear. Parece mais uma desculpa para aqueles homens ficarem entre si, longe de suas mulheres e filhos. Eles não sabem nada da vida.

 




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

BEM AMIGOS DO CINEMA BRASILEIRO

 



Quando eu era um jovem e intrépido universitário, há mais ou menos uns 15 anos, tive uma coluna num blog que se chamava “Crítica de cinema do Galvão”. Acaso o título não seja auto-explicativo o suficiente, desenvolvo por aqui. Eram resenhas de filmes publicadas por um Galvão Bueno imaginário. As críticas imitavam a verborragia, as expressões e o ufanismo invencível do narrador do tetra e do penta. Eram sempre variações de uma mesma piada. Eu pegava um filme estrangeiro festejado pela crítica e esculhambava, comparando a um similar nacional, que teria feito a mesma coisa, só que melhor.

Um dos meus textos favoritos comentava o filme argentino “Segredo dos seus Olhos”, vencedor do oscar de melhor filme estrangeiro de 2010.  Galvão, claro, ficou uma arara. “E argentino sabe lá fazer filme de ditadura que nem a gente? Por acaso, eles já botaram o Agostinho Carrara para sequestrar o embaixador americano com ajuda do Rui e da Vani?”  A referência era sobre o filme “O Que é isso companheiro?”, de Bruno Barreto, baseado no livro de Fernando Gabeira. 

Um drama tenso e bem executado sobre uma ousada ação da guerrilha durante a ditadura militar, que contava com algumas escolhas de casting pouco ortodoxas. Tinha Pedro Cardoso no papel de um guerrilheiro (Gabeira) e Lulu Santos como um delegado de polícia. Hoje um tantinho esquecido, o filme concorreu ao Oscar, em 1998. Entrou na condição de favorito, com transmissão em clima de Copa mostrando os atores reunidos no Canecão. Pelo menos, rendeu um chilique anti-imperialista, ao vivo do Arnaldo Jabor, que comentava o evento na Globo. Não foi dessa vez, Brasil.

Ingressei na faculdade de Comunicação Social pela UnB em 2006. Era um período de mudanças profundas no audiovisual. Quando eu entrei na faculdade, os alunos que estavam lá, sonhavam no dia em que filmariam em película. No meu último ano, os calouros que entravam faziam plano de carreira para serem youtubers. O curso de audiovisual tinha um apego, para alguns: justo, para outros: exagerado, ao Cinema Novo. A coluna do Galvão foi inspirada em um professor que, ao ouvir os alunos reclamando da overdose de Glauber e Nelson Pereira dos Santos, costumava responder. “Vocês vão aprender mais assistindo a um filme brasileiro ruim, do que a um filme americano bom.” Ele, claro, era inglês.

Oficialmente, eu achava a frase absurda. Como estudar cinema sem “Cantando na Chuva”, “Pulp Fiction” ou “Poderoso Chefão”? Mas havia uma parte de mim que concordava. Afinal, toda paródia que se preze é, no fundo, uma homenagem sincera. Fui muito feliz nas madrugadas do Canal Brasil. Aprendi a ignorar as filmagens mambembes, as cenas de nudez inexplicáveis, os diálogos que pareciam dublados e que podiam oscilar entre a telenovela e o teatro de vanguarda. Apreciava as dores e delícias do nosso cinema, pelo simples fato de ser nosso.Porque nós somos o olhar de desespero tarado do Peréio, o sorriso de deboche da Leila Diniz, os cangaceiros giratórios do Glauber, o andar de tigresa da Sônia Braga, a bunda do José Wilker descendo o Pelourinho, cada um dos convidados do Baile do Bené, a Fernanda Montenegro catando feijão para o almoço do dia seguinte, o Grande Otelo recém-parido no chão da oca, gritando unhéee.

Domingo, durante a transmissão do Oscar, na torcida por Fernanda Torres e por “Ainda Estou Aqui”, pretendo reencarnar meu antigo personagem. Vou dizer coisas como: “Bem amigos do cinema brasileiro. Haja coração! Hoje, enfrentamos um velho adversário: a França. Após se cansarem de fazer filmes que mais parecem uma partida de futebol com 90 minutos de comentários ininterruptos do meu amigo Casagrande, os franceses foram ardilosos. Fizeram o que fazem sempre. Roubaram os talentos dos outros países para brigarem pela taça. Mesmo que Emília Pérez pareça mais uma trama requentada de outra Perez, a nossa Glória, eles chegam com pinta de favoritos. De um lado, temos Jacques Audiard e todo o poderio da Netflix. Do outro, o nosso Waltinho Salles, apenas um rapaz latino americano, sem din... Bem,  o resto da música não combina tanto assim. Mas eu confio na virada e na estrela solitária de Waltinho. E nossa Ferrrrnanda Torres. Irá desbancar as estrelas de Hollywood e sambar na apoteose do cinema, ao som do Rappa cantando Vapor Barato?”

Bora Brasil, que dessa vez o caneco é nosso. 


terça-feira, 26 de novembro de 2024

MINHA FILHA, MINHA AVÓ E MEIA DÚZIA DE FILÓSOFOS

No sábado, dia de finados, levei a minha filha para conhecer a minha avó. A mulher de 3 meses olhou para a mulher de 95 anos e ambas sorriram. Aquele sorriso era muito elementar e ao mesmo tempo um mistério. A mente da minha filha já é capaz de movimentar a boca para balbuciar pequenos sons,  fazer a mão segurar seu elefantinho de pano e sabe que quando chora mais forte é atendida mais rápido. Da mente da minha avó já desapareceram nomes, receitas, mágoas, histórias, rostos, fatos, normas, deveres.  Em compensação, os sorrisos aumentaram. Ela sorri para minha filha e minha filha sorri para ela. Por que? O que na mente delas provocava esses sorrisos sem razão?

No intricado percurso da história dos pensamentos, muitos defenderam a ideia de que a razão seria o elemento essencial do ser humano. Platão, filósofo grego amante de cavernas obscuras e diálogos luminosos, considerava a razão como a verdadeira natureza da alma, uma ponte com a nossa essência perfeita, nascida no mundo das ideias. Quando o ser e a razão não coincidiam, era culpa do corpo, essa fonte inexata de dor, desejo e ansiedade.  Seguir o caminho contrário era a missão da filosofia: alcançar a transcendência através da razão.

Dois mil anos depois de Platão, havia um soldado entediado, que estava farto de suas ideias. René Descartes servia numa cidadezinha alemã, esperando por uma batalha que não começava, quando decidiu se afastar do quartel após uma noite de febre e pensamentos confusos. Trancou-se no quarto de uma estalagem e resolveu que iria reconstruir toda a filosofia que existia até então. Começou a duvidar de tudo.   De tudo, mesmo, incluindo a própria realidade. Questionou por que aquilo que ele via não poderia ser obra de um demônio maléfico, capaz de criar uma ilusão de enormes proporções? Que certezas ele tem? O que ele poderia mesmo saber que existe? A primeira resposta que lhe trouxe satisfação foi o pensamento. Sua dúvida era um pensamento e esse pensamento existia. Se existia um pensamento, era porque deveria existir quem o pensasse. A razão era a prova fundamental da sua existência e, claro, a inspiração do seu slogan mais famoso: penso, logo existo. A partir dessa certeza inicial Descartes começou a construir o caminho para a sua filosofia, onde todo o conhecimento derivava da razão, base de todas as ações humanas.

Outros pensadores não partilhariam da mesma confiança no poder ilimitado da razão. Tanto Baruch Espinosa, um judeu de ascendência portuguesa, refugiado na Holanda, que conseguiu a proeza de ser perseguido por sua própria comunidade, como Immanuel Kant, um professor universitário prussiano que revolucionou a história da filosofia sem jamais sair de sua cidade natal, duvidavam do poder ilimitado da razão. Para eles, os seres humanos são, com frequência, governados por paixões. Parte da natureza, somos suscetíveis a essas forças violentas, como uma embarcação que fica no caminho das ondas, durante uma tempestade. Entretanto, haveria uma saída. Cultivar a racionalidade era o caminho para libertar a alma da prisão das paixões.   Escolher a razão era atender a principal vocação humana, alcançar a única liberdade possível. Entender a razão como um caminho a ser conquistado, influenciaria diferentes abordagens sobre a mente nos séculos seguintes, como a psicanálise de Freud e o existencialismo de Sartre. 

Hoje, o pensamento foi decodificado em pequenas ondas cerebrais analisadas por neurocientistas.  Com a inteligência artificial, já se discute a razão para além da vida humana, enquanto uma vida humana sem razão continua a parecer insuportável. Recentemente, o filósofo e poeta, Antônio Cícero, ao optar pela eutanásia, antes que uma doença degenerativa consumisse sua capacidade intelectual deixou uma carta de despedida: “não consigo mais escrever bons poemas, nem bons ensaios de filosofia.” Para ele, para muitos, uma vida sem razão não vale a pena ser vivida.

Minha filha abriu a boca e deu um grito suave. Minha avó beijou os seus pés. Sorriram com maior intensidade. Ficaram alguns minutos olhando uma para outra em estado de profunda felicidade. Por mais de dois mil e quinhentos anos, os filósofos viram na razão o ponto mais elevado do ser, o caminho para compreender a alma, a característica que nos define como humanos. Começo a procurar em outro lugar.


domingo, 1 de setembro de 2024

COMO ESCOLHER UMA CANÇÃO DE NINAR



Logo nos primeiros dias, em uma impressionante lição de humildade, o pai descobre que é um corpo estranho. Para o bebê, há a fonte da vida, o centro primordial de acalanto, a ponte com tudo o que se conhece do mundo, o sentido final da existência. Isto é, evidentemente, a mãe. O pai, com sorte, é o seu acessório.

Como todo bom acessório, é fundamental que o pai descubra maneiras de ser útil. Ele deve incorporar o seu canivete suíço interior e se desdobrar no maior número de atividades possíveis. Aprender a colocar fraldas que não vazam, enfiar mãozinhas, cada dia mais espertas, em mangas estreitas, esterilizar utensílios, coordenar planilhas de amamentação, fiscalizar o paradeiro de bicos de silicone. Além de toda a sorte de tarefas domésticas, que, espera-se, ele já sabia executar antes de se tornar pai.

A rotina de acessório também tem seus momentos de glória. Intimado a carregar sua cria, o pai sente o bebê adormecer, ouvindo a batida do seu coração. Isto dura mais ou menos trinta segundos. Serão os melhores trinta segundos da sua vida.  Até que o próximo choro começa. E aí vem um grito, digno de Munch, vocalizando todo o desespero que um ser pode sentir. E as mãozinhas que tentam se afastar do seu corpo, a todo o custo. Freud poderia ter escrito um livro inteiro sobre o desamparo paterno, se tivesse alguma vez, largado o charuto, para segurar seus rebentos.

Assim, o pai descobre que irá fazer tudo o que está ao seu alcance, para que esses trinta segundos possam durar um pouquinho mais. Ele reza, troca o bebê de posição, aprende a dar o leite materno em uma colherinha anatômica, desenhada pela Nasa. Tenta se aperfeiçoar na arte de escolher canções de ninar, mesmo alertado pela ciência pediátrica, de que no primeiro mês de vida, o bebê não compreende uma única palavra.

Mas quem sabe, o bebê não entenda as entonações? Pensa o pai, esperançoso. Os sentidos ocultos que colocamos nos versos, sem perceber. Não seria essa, afinal, a linguagem anterior, que os poetas querem despertar? Não é essa a tarefa dos compositores? Escolher palavras, que transcendam a si mesmas, quando entoadas em canções. 

Na dúvida, escolho um samba enredo antigo da Portela (para marcar minha posição minoritária, já que a criança tem mãe, avô, avó e madrinha mangueirenses), “O Mundo Melhor de Pixinguinha”. Desacelero o andamento e canto apenas o refrão para minha filha. “Pizindin, Pizindin, Pizindin. Era assim que a vovó, Pixinguinha, chamava. Menino bom na sua língua natal. Menino bom que se tornou imortal. A roseira dá rosa em botão. Pixinguinha dá rosa canção. E a canção bonita é como a flor. Que tem perfume e cor.”  Melhor que Tutu Marambaia!

Ou aproveito que você nasceu leonina e canto. “Gosto muito te de ver leãozinho, caminhando sobre o sol...”  Ou, mesmo, arrisco composições próprias, como a “melô da foca fofoca”, ou, nos dias mais difíceis, o “pacotinho de brabeza”. Nessa hora, o pai delira um pouquinho. Imagina que inventou a nova galinha pintadinha e vai poder pagar todos os seus estudos, com que vai receber de direitos autorais.  

Também volto para minha infância, para perto do mar de Angra, que inspirou o seu nome, Marina. E canto, bem baixinho, o “Hino do Revolucena”, grupo de teatro de rua, da qual fizeram parte minha mãe, meu pai e meu tio. “Nem vento, nem temporal, nos impede de entrar em cena. Senhor e nem senhora, nos apavora. Estamos, a todo vapor, tocando nosso barco com muito amor. Vamos estender nosso poema, o nosso barco é o Revolucena.”  Ou o “Semba dos Ancestrais”. Eu sei que a música é do Martinho, mas conheci pelo PC e em algum lugar da minha cabeça sempre será do PC. E para acalmar o seu choro, para me acalmar durante o seu choro, digo, como numa reza. “Podes crer, no axé dos seus ancestrais. Podes crer no axé.”

O pai logo percebe o óbvio, que escolhe canções, mais para a si mesmo, do que para a sua filha. Então, desprovido de culpa, ele começa a cantar “O Caderno”, do Toquinho.  É uma poderosa metáfora da paternidade (também um jingle de um comercial de lápis de cor), em que o pai aparece transfigurado na figura de um caderno, prestes a ser usado pela primeira vez. Tudo cabe naquela canção. A vontade de estar sempre presente. “Sou o que vou seguir você dos primeiros rabiscos até o be a bá”; a pretensão de ser o melhor amigo da filha: “Serei de você, confidente fiel, se teu pranto molhar meu papel” e até o medo de um dia ser esquecido: “só peço a você um favor se puder, não me esqueça num canto qualquer.”  

Mãe corre aqui. O pai começou a chorar mais que a criança.


quarta-feira, 24 de julho de 2024

UNDIÚ (parte 2)

 



Dinorah era professora e uma das melhores percussionistas do Recôncavo Baiano. Seus olhos faiscavam toda vez que discutia sobre música. Podia permanecer por horas, indo e voltando no mesmo assunto, até que a outra pessoa concordasse com ela, como se ensinasse um toque simples para um aluno teimoso e ruim de ouvido. Ligou o Spotify na caixa de som e pôs: 

Undiú. 

Logo, a voz pequena e as batidas do violão do João Gilberto ocuparam todo o espaço do quarto. Repetiam-se em movimentos circulares, que seriam parecidos com as ondas do mar, se as ondas do mar pudessem apenas banhar os corpos sem jamais afogar ninguém.  Dinorah dizia:

—  O João Gilberto aprendeu ioga, no final da década de 1960, quando ele morava no México. Foi iniciado por uma discípula do guru indiano Yogananda. João leu o livro de Yogananda, “Autobiografia de um Iogue” e se apaixonou. Ele já era um iogue, antes de conhecer qualquer coisa sobre a ioga.

Eu pus o copo do lado da cama e me inclinei com mais profundidade nos travesseiros, na posição do cachorro deitado. Tocaram as músicas:

Falsa Baiana

Estate

Entre uma canção e outra, Dinorah continuava a falar:

—  Você sabe o que quer dizer aquele OMM... de quem medita? É o ruído do espaço vazio, um som anterior ao tempo, presente em todos os outros sons. O bim bom, do violão de João Gilberto é o OMM da música brasileira. A batida que contém todos os ritmos que vieram antes dela. Um big bang feito de trás para frente. Você entende Adamastor?

Eu sei que vou te amar

—  Mas e o canto?

Pronunciei a frase com os olhos fechados, quase sem me dar conta do que dizia, como se as palavras viessem de algum outro lugar. Dinorah nem reparou.

—  Ele canta como alguém que medita. Melhor, como alguém que respira durante a meditação. A música e as palavras passam por ele, como se ele não estivesse lá. 

Louco 

— Você reclamou da ausência do significado das palavras.  Vamos pegar outro artista como exemplo. Bethânia, só pra continuar na Bahia. Cada palavra que ela canta tem um peso próprio. O verbo ganha carne e drama, reza e tesão.  “Foi tudo tão de repente. Eu não consigo esquecer.” É uma frase qualquer. Mas com ela vira uma história de amor enlouquecida, cheia de vida e angústia. A palavra se transforma em Bethânia. Com o João acontece o contrário. Se uma canção pudesse existir sem a presença do ser humano, seria assim...

É preciso perdoar

— ... a palavra só tem um significado possível. O significado do som.

Os antigos vedas indianos ensinavam que através do sonho era possível alcançar um entendimento superior ao da consciência. No sonho, livre das ilusões da matéria, o ser poderia se perceber mais próximo da sua verdadeira natureza, inseparável da natureza divina. Dentro do quarto, uma onda recuava e voltava, em um mesmo ritmo. Era guiada pelo som de mil tambores. Os tambores viraram um só, depois, perderam a substância. Transformaram-se numa batida sem tambor. A onda cobriu todo o meu corpo. Mas o mar, já não era mar, era ar. O ar que estava dentro de mim era o mesmo que o ar que estava fora. Então, acho que compreendi o que Dinorah queria dizer. 

É uma pena estar prestes a acordar. 


Leia: Undiú (parte 01)

UNDIÚ (parte 01)

 




Ela gostava de falar, quando meus olhos já estavam fechados. Desconfiava que não era apenas pela diferença entre nossos horários de sono, óbvia após poucas noites dormindo juntos. Eu adormecia logo depois da meia-noite. Ela seguia zanzando pelo quarto, entediada ou ansiosa, bebendo o resto da garrafa de vinho, até cair num sono profundo às três ou quatro horas da manhã. Mas não creio que seja essa a razão para que ela desejasse falar tanto de madrugada. Acho até que, no fundo, Dinorah preferia que eu não respondesse. Queria mesmo era que eu permanecesse dormindo. Pensava que assim poderia influenciar meus sonhos com as suas palavras e a sutil melodia da sua voz. 

— A-da-mas-tor.

Ela adorava pronunciar cada sílaba do meu nome, realçando tudo o que ele tinha de estranho. Adamastor, o gigante que se revoltava contra Zeus e era transformado num rochedo horrendo. Meu pai era um grande fã de mitologia. Pena nunca ter paciência para ler as histórias até o final.

— O que foi?

— Por que você não gosta de João Gilberto?

— Por que você acha que eu não gosto de João Gilberto?

Retruquei sem abrir os olhos, nem pronunciar direito as palavras, rezando para que aquela conversa tivesse vida curta. Mais eficaz do que minhas preces, seria não ter respondido com outra pergunta. 

— Lembra quando meu Spotify estava tocando e o algoritmo escolhia várias músicas do mesmo artista. Teve Tim Maia Tim Maia Tim Maia. Gal, Gal, Gal. Bethânia, cinco vezes.  Quando, entrou João Gilberto você trocou a música. Foi a única vez que você se levantou.

— Tive vontade de ouvir Martinho da Vila. 

— Mas o que você não gosta no João Gilberto?

— Nada, ué. Só queria ouvir outra coisa.

— Tem certeza? Não estou te recriminando. Só curiosidade mesmo.

Já de olhos abertos, recostado no travesseiro, segurando um copo, que acabava de ser preenchido com cerveja, me vi forçado a pensar naquela questão, pela primeira vez. Por que, cacete, eu não gostava do João Gilberto? 

— Acho que ele canta todas as músicas do mesmo jeito

— Como assim?

— Parece que o está na letra não importa. Tanto faz se é o “pato vinha cantando alegremente” ou “eu sei que vou te amar por toda a minha vida”. Ele canta igual, como se o sentimento das palavras não existisse.

— Eu discordo, mas entendo. É uma opinião bem previsível.

— Você parece ofendida. Não sabia que gostava tanto de Bossa Nova.

— Eu não gosto de bossa nova. Gosto do João Gilberto.

— Qual é a diferença?

—  A bossa nova queria fazer um som limpinho e confortável, bem coisa de carioca. 

Respondi a ofensa com um agrado e comecei a cantarolar “Baiana” do Emicida pra ela. Dinorah prosseguiu:

— O João Gilberto não é nada confortável. Ele inventou um jeito meio hindu, meio budista de tocar samba que só dá certo porque é estranho. 

—  Por isso que ele faz tanto sucesso no Japão?

—  Por isso que você acha que ele canta todas as músicas do mesmo jeito. Porque presta atenção nas coisas erradas.


Leia: Undiú parte 2


sexta-feira, 12 de julho de 2024

AS MORTES E OS BRASIS DE ASSIS VALENTE

 




O que os versos: “Brasil, esquentai vossos pandeiros/ iluminai os terreiros/ que nós queremos sambar”;  “cai cai balão/ aqui na minha mão”; “beijei na boca de quem não devia/peguei na mão de quem não conhecia/ dancei o samba em traje de maiô/ e o mundo não se acabou” e “eu pensei que todo mundo  fosse filho de papai noel”  têm em comum? Ora, todos saíram da mesma cabeça, são filhos do mesmo letrista, o baiano Assis Valente.

Dá até para dizer com uma dose de lirismo e outra de cinismo, que o Brasil, ou pelo menos a versão mítica do país, estava tão presente no coração de Assis, que quando ele quis se despedir da vida, escolheu um símbolo nacional como palco. No dia 13 de maio de 1941, Valente se atirou do alto do Corcovado, de costas, olhando nos olhos do Cristo Redentor. Não morreu.

A maior parte de sua obra foi composta nas décadas de 1930 e 1940. Coincide no tempo e no espírito com a primeira era Vargas, época em que a formação de uma identidade nacional, da criação de uma resposta unificada para a pergunta “o que significa ser brasileiro?” era uma obsessão para sociólogos, artistas, escritores, além de todo o departamento de propaganda do Estado Novo.

A ideia de uma brasilidade, festiva, mestiça e potente era, claro, um mito como são todas as ideias de nação, todas as ideologias. Mascarou (mascara?) muitas dores. Produziu (produz?) muitas belezas. Entre elas, as composições de Assis.  Está presente nas músicas infantis, tão repetidas que parecem de autoria coletiva, como a junina “Cai cai balão” e a natalina “Boas Festas”. É a marca principal dos seus belos sambas-exaltação, como “Brasil Pandeiro” e “Alegria”

Talvez seja ainda mais forte nas músicas que querem apenas ser crônicas de sua gente, de sua época.  Histórias saborosas, vívidas e profundamente brasileiras, como a da mulher (ou talvez do homem) que cai na farra com quem não devia, quando escuta o anúncio do fim do mundo em “E o mundo não se acabou...”. Da mãe solteira do morro que enfrenta o olhar inquisidor do agente do censo, em “Recenseamento”. “Quando viu minha mão sem aliança/ e olhou para a criança que no chão dormia/ perguntou se meu moreno era decente/ se ele era do batente ou era da folia.”  E ela responde, com altivez, que seu homem era os dois, fuzileiro e batuqueiro, para, em seguida, enumerar tudo que o Brasil lhe deu: o Pão de Açúcar, o céu azul, os feriados. Há também o pai de família de “Camisa Listrada”, sério, com anel de doutor, mas que durante o carnaval “se fantasia de Antonieta e vai dançar no Bola Preta até o sol raiar”, com a camisola da esposa e uma saia feita da cortina de veludo arrancada da sala de casa. 

(Aliás essa música me lembra muito o meu avô, que sempre sumia durante os quatro dias de carnaval e destruiu o vestido de noiva da minha avó, ao usá-lo, no Bloco das Piranhas, por anos seguidos. A lenta desaparição do vestido de noiva no corpo do marido, ao longo de vários carnavais, daria com uma pitada distorcida de imaginação uma bela crônica de Nelson Rodrigues.)

Se a obra de Assis Valente continha uma brasilidade idealizada, sua vida foi marcada por uma experiência bem mais brutal de país. Ele nasceu em 1911, em Santo Amaro, na Bahia de “mucama com feitor”, como cantaria outro santo-amarense mais famoso. Seu pai era um homem branco, de classe média e a mãe, uma mulher negra, que trabalhava como empregada na casa da família. A união não era reconhecida e o menino era rejeitado. Na infância, enquanto recitava poemas na feira, foi raptado e oferecido a uma família rica, “por ser muito inteligente”. Era tratado como empregado. Anos depois, conseguiu reencontrar sua antiga família. O tio, dentista, o ensinou a profissão de protético, a ser artesão das próteses dentárias.  Exerceu o ofício por toda a vida. Jamais se sustentou apenas com a música.

Chegou ao Rio, em 1930, e foi acolhido por Heitor dos Prazeres e outros sambistas da Mangueira. Começou a mostrar suas canções e a ser gravado.  Virou um dos compositores favoritos de Carmem Miranda. Casou-se. Mas, de hábitos extravagantes, vivia cheio de dívidas e era viciado em cocaína. Infeliz no casamento, era atormentado, alguns diziam por paixão não correspondida por Carmem Miranda, outros pelo esforço de manter oculta sua paixão por outros homens. Sua filha tinha dois meses, quando ele cometeu o desatino de se jogar do Corcovado. Foi salvo pelas árvores. Ou, como ele gostava de dizer, pelo olhar do Cristo.

Não a toa, nas canções de Assis, quase sempre, há uma sombra de tristeza pairando sobre a alegria. É a iminência da destruição que libera o indivíduo para realizar os seus desejos em “E o mundo não se acabou...”. A tristeza do povo é o que faz a gênese do samba em “Alegria”, “minha gente, era triste e amargurada/inventou a batucada pra deixar de padecer”. E sabe-se lá o que vai acontecer com a nossa música, depois que “o Tio Sam aprender a tocar pandeiro para o mundo sambar” em “Brasil Pandeiro”. Até em “Boas Festas”, canção de natal,  Papai Noel, ou “com certeza já morreu”, ou “então, felicidade, é brinquedo que não tem.”

A conciliação entre esses dois impulsos opostos, o de lutar contra o apagamento de dores, passadas e presentes, e encontrar forças para vivenciar alguma forma de alegria coletiva, marca até hoje as disputas entre as diferentes formas de brasilidade. Uma tensão que, às vezes, pode ser insuportável. Dezessete anos depois da tentativa de suicídio no Corcovado, Assis Valente engoliu veneno, diluído em guaraná e morreu em um banco de praça na Glória.    Quem sabe a gente tem um pouquinho mais de sorte? Salve o prazer, salve o prazer... 

O PRIMEIRO NATAL?

  Para o rigor dos fatos, não é assim o primeiro, afinal Marina já marcou presença na ceia de 2024. Mas se aquele era, sem dúvidas, o nosso ...