segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O PRIMEIRO NATAL?

 



Para o rigor dos fatos, não é assim o primeiro, afinal Marina já marcou presença na ceia de 2024. Mas se aquele era, sem dúvidas, o nosso primeiro Natal como pais, cheio de desafios particulares, como tentar equilibrar a cadeirinha, os presentes e a bolsa térmica com pratos da ceia no banco de trás de um carro, para a bebê era uma noite como outra qualquer, talvez, um pouco mais agitada do que de costume. Acho justo dizer, que o primeiro Natal de alguém só acontece, quando vem uma consciência mínima da festa. Quando se percebe que o momento vivido não é como os outros. Que existe algo de especial naquele encontro.

Seria possível esse tipo de compreensão com 1 ano e 4 meses de idade? Muitos não acreditariam. Afinal, leva tempo até nos certificarmos que o bebê realmente entende o significado de uma palavra abstrata. Uma coisa é quando ela fala e aponta termos da sua realidade imediata: mamãe, papai, au-au, vovó, água, rua, azul, etc. Outra é quando minha mãe fala com ela por chamada de vídeo e diz “ tô com saudade” e ela repete “da-de”. Não dá para cravar que ela entende o que diz.  

O que não quer dizer, que não possa acontecer, de vez em quando. Por exemplo, com muita frequência, alguém dizia para Marina que ela era bonita. Então, um dia ela começou a pegar roupas, acessórios, como o seu chapeuzinho de praia ou um colar ou turbante da mãe, correr para frente do espelho e gritar bo-ni-ta. Em um processo mental, extremamente sofisticado, ela havia entendido o significado de algo que não era concreto, nem imediato. É algo bom de ver, como testemunhar um pequeno milagre.

Voltando aos acontecimentos deste Natal. Para a família, em certo sentido, era também um primeiro. Após três décadas revezando entre a ceia do dia 24 na casa da minha avó materna e o almoço do dia 25 (com direito a roda de samba e possibilidade de extensão pela madrugada) na casa da minha avó paterna, um ritual que de tão repetido, dava a impressão de que aconteceria para sempre, a festa desse ano foi na casa dos meus pais. Eles receberiam, pela primeira vez, seus netos: minha filha e o filho da minha irmã.  Era o início de uma nova tradição.

Chegamos por lá no dia 21. A casa dos avós da Marina e do Gael, como manda a literatura, fica num sítio. Havia uma árvore com enfeites dourados e a altura aproximada do teto da sala, dois bonecos de neve feitos de pano, do tamanho das crianças e um Papai Noel de 1m20.  (Como tudo isso, deixou de ser a decoração de segunda mão de um prédio em Niterói para se transformar no enfeite natalino da casa da minha mãe, com direito a uma escala de dois anos, na minha avó, em Angra é uma história que daria outra crônica). 

Não seria correto, dizer que Papai Noel estava no topo dos interesses da Marina. Ele perdia de longe para a ir a piscina, ouvir histórias no colo da bisa, ou ver as vacas do sítio vizinho, mas vez ou outra ela repetia o seu “Ai-el”, com alguma empolgação. Como “Ai-el” é também o jeito que ela pronuncia o nome do primo, tínhamos que adivinhar pela entonação ou aguardar até que ela apontasse na direção do que queria. E íamos nós acompanhá-la, enquanto ela fazia carinhos na barba ou tentava derrubar o bom velhinho no chão.  Os bonecos de neve, bem mais leves, ela botava facilmente para dançar no ritmo de “pula, pula pipoquinha”. 

Os enfeites fizeram sucesso, com bolas e raminhos carregados de uma purpurina dourada, que ela adorava arrancar da árvore. A purpurina se espalhava nas suas mãos, rostos, barriguinhas, até grudarem de forma irreversível nos pelos do meu corpo, relembrando carnavais passados. Dia 23, meu pai instalou o pisca-pisca, no quintal, em meio a uma tarde chuvosa, com uma ousadia e tensão dignas daquelas comédias americanas em que os vizinhos competem pela decoração natalina. Marina saudou a novidade com entusiasmo: “luzge”, ela clamava, para ligarmos a iluminação.

A família combinou como seria a festa. Ceia e troca de presentes dos adultos no dia 24. Café-da-manhã e abertura dos presentes na árvore para as crianças, no dia 25. Horas antes da ceia, fomos surpreendidos por um pequeno apagão elétrico.  Perto das oito, a luz voltou. Encantada, Marina gritou “luzge”. Minha esposa a vestiu com uma roupa que parecia uma mescla de fantasia de Sininho e miniatura de árvore de Natal. Ficou a coisa mais linda do mundo. Como o primo Gael dorme cedo, Marina foi a única bebê a comparecer na festa.  Demos o seu jantar e em seguida, começamos a troca de presentes. Era para ser apenas entre os adultos, mas ela fez questão de abrir cada uma das embalagens. E de calçar o tênis da tia. E de vestir a camisola nova da avó. 

Por volta das dez, ela, ainda acordada e totalmente bem alimentada em sua janta, viu a mesa posta para a ceia. Gritou “coo-mer”. E sentou-se na cadeirinha e se pôs a atacar a farofa e o chester. Veio a oração, depois o brinde. Eu e Doroteia brindamos na frente dela, praticamente todos os finais de semana e algumas quartas-feiras mais difíceis, mas era primeira vez que Marina notava um brinde. Gritou “ton-tem”, e ninguém entendeu nada, até que arriscamos uma tradução. Tim-Tim? Ela riu e brindamos de novo, incluindo a aguinha dela. Marina gritou: “Tom-tem”. E todos brindaram mais uma vez. “Tom-tem”. E ficamos nessa, mais umas sete ou oito vezes. 


Marina foi dormir as onze. Exaustos, nós, os pais, fizemos o mesmo. No dia seguinte, tivemos a abertura de presentes entre as crianças. E claro, cada um apreciou mais o brinquedo que o outro ganhou. No almoço, as sobras da ceia, estiveram ainda mais gostosas. Depois, veio a piscina, novas visitas, e assim, se foi o Natal.

Alguns dias depois, resolvi mostrar à Marina toda a mágica de um tocador de CDs. Fomos ouvir “Borboleta”, uma música da Marisa Monte, que ela já conhecia. É aquela da “Borboleta pequenina, lálálá...  venha ver cantar o hino que hoje é noite de Natal.” Ao ouvir a palavra Natal, Marina se acendeu. Começou a gritar “Tal”, “Tal” e apontar a árvore da sala. Então, repetiu a palavra umas vinte vezes, com uma alegria cada vez maior e começou a correr pela casa. Talvez seja ingenuidade de pai, mas acho que ela entendeu o significado.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

MARINA E O MAR

 




Não foi um encontro planejado.  Minha mulher e eu fomos ao aniversário de uma amiga em um quiosque, na praia de Copacabana. Temos em casa, algumas opções de roupas de banho para bebês: fralda de piscina, baby biquinis, um traje completo de mangas compridas com suposta proteção contra raios ultravioleta. Mas não levamos nada disso. Eram muitos e se... que precisaríamos percorrer até darmos um mergulho em família. E se a praia não estiver muito cheia. E se o sol não estiver muito forte. E se a onda não estiver muito alta. Pelo sim, pelo não, colocamos sunga e biquini por baixo da roupa e partimos para Copacabana, sem grandes expectativas. 

A primeira descoberta da Marina foi a areia. Na beira do quiosque, na parte sombreada da praia, ela se divertia demolindo os montes que construíamos com seu baldinho. Sujando todo o seu vestido de festa, ela balançava as pernas e os braços, em uma alegre coreografia, enquanto nossos olhos vigilantes se certificavam de que ela não iria confundir aquela fartura de grãos com a amada farofinha dos seus almoços.

Doroteia, a mãe, foi a primeira a manifestar seu desejo de mar. Não entramos na água salgada desde que Marina nasceu. Pensando bem, um pouquinho mais. Pelas minhas contas tem pelo menos um ano e meio de jejum. Tempo demais para um nascido e criado em Angra dos Reis (meu caso), ou para quem passou boa parte da infância e a adolescência em Ipanema (caso dela). Como estávamos em praia carioca, a saudade dela era maior.

__ Vai lá. Eu olho a Marina.

__ Ah, vamos nós três.

 Eu, sempre o botafoguense da relação, repliquei com uma mescla de pessimismo e preguiça.

__ E se estiver puxando muito. A gente vai lá, à toa?

__ É. A gente vai lá à toa e volta. 

O argumento bastou para que as roupas fossem tiradas e as carteiras e os celulares devidamente guardados no quiosque. Iniciamos nossa caminhada com Marina até a beira do mar. Nada de baby biquini, traje anti-UV, fraldinha especial impermeável. Ela foi de fralda normal mesmo, no impulso do nosso improviso.  Durante o trajeto, os e se... pensados anteriormente foram caindo um a um. O sol estava ameno, a praia transitável, as ondas quase domesticadas. Sentamos com Marina na parte úmida da areia, a última linha da água, no ponto onde a espuma gelada costuma tocar os pés dos banhistas indecisos. Então, esperamos. 

A onda quebrou lá na frente, a água começou a penetrar a areia devagar, será que chega até aqui? Chegou. Molhou os pés e as pernas da Marina. Ela deu um grito imediato de felicidade. O mar recuou e assim que ela sentiu a terra seca, começou a pedir “mais”, “mais”. E na fala própria dela mar e mais viraram uma palavra só. Outra onda quebrou lá na frente, a água dessa vez veio mais fraca, uma fina camada embaixo de nós. Mas bastou para provocar nela um sorriso. Na seguinte, aconteceu o contrário.  O mar molhou toda a barriquinha da bebê, chegou na fronteira do peito. Ela sacudiu todo o corpo com a maior alegria do mundo. Entre as muitas sensações experimentadas naquela tarde, o sabor do sal, o gelado da água, a textura da areia, era essa que faltava: a surpresa da onda.  

Acostumado a uma baía de águas tranquilas, não tenho uma boa relação com a imprevisibilidade das ondas. O mar, para mim, sempre foi lugar de permanecer. De deitar o corpo, com os braços abertos, os olhos voltados para o céu e deixar a água abafar todos os sons do mundo. Boiar é a melhor forma de não pensar em nada. Batizada na praia de Copacabana, gargalhando com os repuxos do oceano Atlântico, acredito que Marina vai seguir mais o caminho da mãe. Vai querer aprender a pegar jacarés e a furar ondas.  Gostar de um mar que surpreenda e não te deixa descansar. Bem, ainda resta uma tentativa. O próximo batismo deve ser em Angra. Quem sabe, ela não ame cada mar a sua maneira: o que dança e o que medita.  Seu nome, afinal, não foi escolhido por acaso. É o início de uma história que promete muitos capítulos. Marina e o mar. 


terça-feira, 28 de outubro de 2025

A PRIMEIRA RIMA

 




Espremida entre o meu colo e a grade da janela, Marina se agita. Olha para baixo e grita: ruuuua. Uma, duas, três vezes. Depois olha para cima e ergue o dedo na direção do céu, aponta para noite. Então, diz: luuuuua. Aguardo para ter certeza de que são mesmo termos diferentes.  Como sabe qualquer leitor do Maurício de Souza, “r” e “l” estão entre os mais traiçoeiros fonemas infantis. Ela repete as palavras. Lua olhando para cima. Rua olhando para baixo. Não há mais dúvidas. Marina fez sua primeira rima. 

Do alto do seu um ano e dois meses, já é uma conhecedora desses dois substantivos. A rua, ela aprendeu primeiro. Ora diz apontando para janela, ora para a porta. Essa descoberta ainda me impressiona. Como ela percebeu que o lugar que observa de cima é o mesmo canto onde passa sacolejando com seu carrinho?   Ambos, são tão diferentes para os sentidos, não oferecem a mesma vista, os mesmos sons, os mesmos cheiros. Ainda assim, ela notou que se trata do mesmo espaço, acessível por dois caminhos distintos: a porta e a janela.

A lua veio um pouco depois. Não moramos em uma cidade propícia a sair a noite com crianças. Foi uma daquelas luas precoces, que surgem por volta das cinco da tarde. A mãe apontou, ela repetiu. Alguns dias depois, aconteceu de novo no meu colo na porta de um bar, em um aniversário que se estendeu demais, diante de uma crescente. Por fim, repetiu o nome ao ver a lua desenhada em uma página de livro. 

A associação feita na janela era inédita. Dizer palavras soltas, tudo bem, mas assim em sequência e ainda combinando sons e sentidos... Na qualidade de pai, sou por óbvio, suspeito para falar, mas não é um feito e tanto para um bebê? Uns anos atrás, enquanto trabalhava no roteiro para uma série documental sobre Noel Rosa, aprendi com o músico e pesquisador de linguística Luiz Tatit,  que mais do que fazer uma canção funcionar, a rima tem a função de associar dois significados. Pense em “amor” e “dor” que aparecem juntos incontáveis vezes ou “andaime” e “Van Damme”, uma única vez, por responsabilidade dos Mamonas Assassinas.

As rimas ocupavam um papel fundamental nas culturas orais. Eram uma ferramenta importante para memorização dos conhecimentos, quando a maioria da população ignorava a escrita. Muitas histórias eram compostas em rimas e também os textos filosóficos e religiosos. Não havia distinção entre profetas e poetas. Ao ver a rima brotar espontânea na fala da minha filha, é natural que eu pense nela como uma forma de presságio. Um sinal para uma canção futura.  A lua e a rua...  Que papel cada uma terá na sua vida?




quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Os Calundus de Capitu




Machado escrevia livros curtos, para não escolher palavras à toa.Se um termo fora do seu repertório habitual surgisse em um dos seus textos, decerto haveria um bom motivo para isso. Em geral, ele utilizava um português elegante e canônico, talvez mais antigo do que sua própria época, repleto de referências da cultura clássica: Dante, Shakespeare, gregos e romanos. Uma linguagem apropriada para seus narradores: homens da elite, de talento limitado, que pensavam ser mais eruditos do que eram na realidade. A fala da rua, marcante em Aluísio de Azevedo, Lima Barreto, João do Rio, não aparecia nele com muita frequência. Desconheço se alguém já fez um estudo sobre a quantidade de termos de origem africana, tão comuns na fala brasileira, utilizados em sua obra. Mas desconfio que não fossem muitos.


Assim, a palavra, quando surge em meio a leitura, chama a atenção, como um continente que desponta em pleno mar. Estamos em Dom Casmurro, nas últimas linhas do capítulo quarenta e seis, ainda no primeiro terço do romance, quando os protagonistas começavam a passar da amizade infantil ao flerte da puberdade. Bentinho e Capitu se reconciliavam após uma discussão boba de adolescentes. Eis o trecho:

O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si, e pedíamos reciprocamente perdão. Capitu alegava a insônia, a dor de cabeça, o abatimento do espírito, e finalmente "os seus calundus”. 

Machado não utilizava palavras à toa. Tampouco as aspas. Havia uma razão para que, ao contrário da insônia, da dor de cabeça e do abatimento do espírito, que poderiam ser expressões típicas do narrador, o Bentinho velho e amargurado, os calundus aparecessem destacados das outras palavras, como se pudessem ser ditos apenas por Capitu. 

Recorramos ao dicionário. Há duas definições para os nossos calundus.  1) “Estado de ânimo caracterizado por mau humor e irritabilidade, e claramente manifestado pelo comportamento.” 2) “Celebrações de caráter religioso, acompanhadas de canto, dança, batuque e que geralmente representavam um pedido ou consulta a divindades ou entidades sobrenaturais.” A etimologia diz que o termo tem origem no quimbundo, idioma falado em Angola, pelo povo banto, que nomeou outras preciosidades como dengo e cafuné.  

A palavra percorre, no Brasil, um caminho interessante. Seu sentido original, o das cerimônias religiosas se diluiu em dois termos, quase opostos. “Lundu”, vai designar a dança, o ritmo musical e as celebrações. A parte festiva do rito.  E “calundus” o estado de espírito melancólico e aborrecido, talvez adequado a alguém que estivesse precisando de uma boa reza. 

A semente de um nome acrescenta nuances ao seu significado. Afirmar que uma pessoa está com calundus é diferente de apenas dizer que ela está triste ou irritada.  O termo traduz uma condição mais específica. Nos faz pensar em alguém diante de uma encruzilhada, que carrega dúvidas difíceis de explicar, ao mesmo tempo de natureza existencial e espiritual. É uma boa razão para que os “calundus” apareçam no livro, justo na fala de Capitu. Poderia haver melhor palavra para definir a introspecção de uma alma oblíqua, que nos observa com olhos profundos, capazes de nos arrastar para o fundo, como a ressaca do mar?

Mas pode ser que haja outra explicação para o fato de Capitu usar uma palavra banta. Observe como Machado descrevia a aparência da personagem, através do olhar adolescente de Bentinho:

Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. 

Sem dúvida, são traços mestiços. Há a boca fina e os olhos claros (mas jamais descritos como “verdes”, como tantas vezes foram retratados em capas de livros e adaptações audiovisuais, talvez por remeter a cor do mar, nos “olhos de ressaca”). Mas também uma pele “morena” e cabelos grossos, que reaparecem mais adiante, em uma das cenas mais conhecidas do livro, quando Bentinho vai penteá-los e o emaranhado conduz ao primeiro beijo do casal. Noutros trechos, quando o autor descreve algum enrubescer de Capitu, jamais compara sua cor à tonalidade europeia das maçãs ou dos morangos, mas ao marrom-avermelhado das pitangas tropicais. 

Os traços mais brancos de Capitu vinham da mãe, Fortunata, de quem Machado diz apenas que era “alta, forte, cheia” e que tinha os olhos claros e a boca iguais aos da filha. Sobre o pai, Pádua, não há uma descrição física específica, apenas uma referência feita de forma cifrada, em um diálogo entre Bentinho e o mexeriqueiro, José Dias, o desagradável agregado da família Santiago. José Dias adverte a Bentinho, que ele não deveria mais ser visto andando, com Pádua pela rua. E diz:

“Quando era mais jovem; era criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança.”  

A trama se passa no Rio de Janeiro, em meados do século XIX. Um momento em que a imensa maioria da mão de obra, seja livre ou escravizada, era negra, José Dias acha desnecessário explicar porque o pai de Capitu poderia ser confundido com um criado. Por essa lógica, Capitu seria filha de um pai negro e uma mãe branca, o inverso do padrão de relações inter-raciais mais comuns no Brasil daquela.  Outra notável exceção era, claro, o próprio Machado, filho de uma lavadeira portuguesa e de um pintor de paredes negro.

Não são os únicos pontos em comum entre os dois. Ambos nasceram pobres, foram vizinhos e agregados de uma família rica, eram donos de uma intensa vontade de saber, que ao mesmo tempo, os aproximava e diferenciava da elite que detinha o acesso a esses conhecimentos, mas que tão pouco sabia o que fazer com aquilo.

“As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de vária espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo. No colégio onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, francês, doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quis que prima Justina lhe ensinasse. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre, depois de lhe propor gracejando, acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. Em compensação, quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai.” 

Um dos temas centrais de “Dom Casmurro” são as semelhanças inexplicáveis. Das muitas que aparecem no romance, pouco se foi escrito e falado sobre as que existem entre o autor e sua protagonista feminina. Seriam conscientes? Os calundus eram uma marca de origem, uma pista deste elo, deixada para a posteridade? Ou se manifestaram como uma força subterrânea em meio ao processo de escrita? Machado não escolhia palavras à toa. Mas poderia ter os seus lapsos. E, por que não, seus calundus.



quarta-feira, 11 de junho de 2025

AULAS DE NARRATIVA COM UM BEBÊ

 

                                      


Ao longo desses anos trabalhando com escrita, li uma quantidade razoável de textos que prometiam ensinar ou, pelo menos, aprimorar o ofício de contar histórias. De tratados filosóficos de 2500 anos, como a Poética de Aristóteles, até manuais de autoajuda para escritores desiludidos. Alguns conselhos quase sempre se repetem. Recomenda-se escrever sobre o que se conhece. Que uma história deve ter uma ação principal clara, conflitos, pontos de virada e catarses cheias de significados. Um personagem deve ser definido por suas ações, ter suas intenções atrapalhadas por obstáculos, descobrir que o que ele quer não é o mesmo que ele precisa.  E, ao final, transformar-se.

Essas leituras trazem algumas desvantagens, como uma perda inevitável de espontaneidade, um risco de padronização, uma sensação de que você está tentando aprender a jogar futebol, decorando cada uma das regras do esporte. Mas há, claro, vantagens, amplamente divulgadas nas orelhas de cada manual de roteiro. Compreender melhor o funcionamento e as normas do seu ofício. Descobrir os caminhos consagrados, com seus atalhos e pontos de fugas. Entender a narrativa como um tipo de trabalho, uma habilidade em constante desenvolvimento. Você sempre pode aprender a contar melhor uma história. 

Desde os primeiros meses como pai, passei a ler histórias para a minha filha. Normalmente, escolho livros voltados para crianças um pouco mais velhas. Agora, por exemplo, acabamos de começar “Crime Castigo” e... Brincadeira. Mas Marina, em geral, se interessa mais por livros com enredos do que os que teoricamente estariam destinados a sua faixa etária (livrinhos de pano ou borracha compostos por ilustrações acompanhadas de descrições simples, de bichos da fazenda “essa é a vaca”, criaturas marinhas “esse é o polvo”, dinossauros “esse é o velociraptor”...) Seus favoritos são: “Gildo” e “Cachorros não dançam balé”, recomendados para crianças entre 4 e 8 anos. 

Tal preferência é, para mim, um mistério, já que, aos dez meses, não é esperado que ela compreenda tramas, ou mesmo as palavras que formam uma história. Ainda assim, enquanto viro as páginas e pronuncio as frases com diferentes entonações de voz, seus olhinhos acompanham tudo com atenção, ela emite ruídos, bate palmas, e, de vez em quando, aponta as figuras. Como será que isso é possível? O que um bebê entende, quando escuta uma história?





“Cachorros não dançam balé”, da americana Anna Kemp conta a saga de Filé, um simpático pug que sonha em brilhar nos palcos com a bela arte dos pliés e piruettes. O livrinho tem vários personagens, como uma menina solidária, um pai distraído, uma professora pernóstica, uma velha perdida na plateia. Um prato cheio para pais que fizeram teatro na adolescência.

A cada leitura, Marina parece perceber algo diferente. As vezes gosta de apontar a menina, em outras prefere o protagonista, Filé. Ou decide ignorar Filé, quando sua presença é evidente, mas nas páginas em que ele aparece disfarçado, escondido atrás de um jornal ou de uma mala, ela observa por um longo tempo, com a sobrancelha franzida de concentração até encontrar o cãozinho e explodir de alegria. Há também momentos em que ela presta atenção em detalhes aleatórios, como os instrumentos musicais, ou uma bolsa que se repete em algumas cenas.  Um gato preto que surge em uma breve figuração é apontado todas as vezes, talvez por associação com a gata da família, a longeva Ivi Brussel. Ela também gosta de folhear as páginas, sem que eu diga nada, apenas admirar formas e cores, em ordens variadas. Ou o contrário, eu digo as falas longe do livro e ela abre um sorriso e começa a divagar com os olhos, talvez reconstituindo as cenas na sua imaginação.

Os manuais de narrativa, em geral, se concentram na forma, na identificação de estruturas que se parecem, em mostrar como as diferentes histórias podem ser a mesma coisa. Marina faz o contrário. Enquanto acompanha uma trama, sem entender suas frases, ela revela como uma mesma história pode ser uma infinidade de coisas diferentes. A cada dia com meu bebê aprendo que contar uma história não envolve apenas enredo, personagens e conflitos.  É também uma sucessão de cores, formas e entonações. Um jogo livre de descobertas que se renovam. É tudo o que existe além das palavras. Um bater de palmas, um sorriso de espanto, um gritinho, uma irresistível sobrancelha franzida de concentração.




sábado, 3 de maio de 2025

A PRIMEIRA GRIPE

 



Tem uma cena famosa no “Godfellas”, o filme que inventou o jeito Martin Scorsese de fazer filmes de máfia, em que o aspirante a gângster, ainda adolescente, dá um vacilo e é preso pela primeira vez. No dia do julgamento, seus comparsas aparecem.  Ao invés de ameaças e reprimendas, o garoto recebe felicitações e tapinhas nas costas de um sorridente Robert De Niro. O recado era claro. Para quem seguia aquele caminho, a prisão era inevitável. Não era uma questão de se, mas de quando iria acontecer.  Parte do seu valor como bandido estava na forma como você atravessava esse calvário. A cadeia era um rito de passagem. 

“Godfellas” foi um dos poucos filmes que vimos no mês passado, dividido em duas parcelas de 1 hora dos cochilos vespertinos da Marina. A cena ressurgiu na minha cabeça, dias depois, quando enfrentamos um difícil rito de passagem do mundo dos pais: a primeira gripe do bebê. 

Começou no feriado de Páscoa, a mãe teve tosse e febre no sábado. A bebê teve tosse e febre no domingo. Passou a segunda e terça-feira meio amuada, melhorando com tylenol. Na quarta, amanheceu sem febre, brincando, dando estridentes gritos de alegria ao atacar seu feijão com carne moída na hora do almoço. Mas tal qual o Botafogo no Brasileirão de 2023, o acender da esperança serviu apenas para intensificar a dor da desolação. Na quarta à noite, o termômetro marcava 39.4. O tylenol parecia não fazer mais efeito.

Nossa bebê engatinha correndo, escala móveis, dialoga com gritos de diferentes tonalidades, toca seu chocalho e se balança toda, quando escuta “Tambor”, samba-enredo do Salgueiro de 2009. Mas naquela noite, Marina parecia retornar as suas primeiras semanas de vida. Não queria comer, só mamar. O seu variado repertório de sílabas e ruídos foi trocado por um choro enfraquecido. Ela mal conseguia se mexer. Movia apenas os olhos, para expressar sua dor e nos encarar com muda perplexidade. Por quê?

Entre choros, lavagens de soro e um termômetro que teimava em subir com sua precisão implacável, fomos assombrados pelos fantasmas das decisões passadas. Um multiverso particular de pequenas ações que, em meio ao nosso desespero, pareciam ter o poder de evitar a gripe. Se não tivéssemos viajado, se não tivéssemos ido a piscina, se tivéssemos usado máscaras, se o outono não tivesse substituído o verão. Depois, foi a vez de um passado mais remoto nos atormentar. Eu tive incontáveis crises de rinite e sinusite ao longo da vida. Dizem que todos encontram sua própria história contada em algum verso de Caetano. Para mim, sempre foi “gente quer respirar ar pelo nariz”. Para completar, minha esposa é asmática. Nossa genética lançava uma sombra sinistra a cada espirro da nossa filha.

Perto das quatro horas da manhã, a febre voltou a romper os 39 graus. A pediatra estava marcada para as onze horas. Não conseguimos esperar. Chamamos um uber e fomos até à emergência. Na hora da consulta, a febre havia baixado um pouco. Marina estava ativa o suficiente para agarrar o estetoscópio da médica. Nossas dúvidas foram sanadas. “O pulmãozinho dela está limpo?” Estava. “Há risco de convulsão com a febre alta?” “A criança que tem tendência a ter convulsão, passa mal até com 37,5.” “E como a gente sabe se ela tem tendência a ter convulsão?”  “Vocês só vão saber se ela tiver”. Muito tranquilizador. Por fim, a pergunta definitiva. “O que ela tem?”  Marina fez o teste de Influenza e deu positivo. Gripe clássica. A bebê chorou, clamando pela mãe. Fiz quase a mesma coisa, mas por WhatssApp. 

Voltamos para casa, fechamos os olhos por algumas horas e às onze estávamos na pediatra. Resfriados ou viroses são marcados pela incerteza, podem ser causados por uma infinidade de vírus de muitos nomes. Em geral o tratamento é fortalecer o corpo e esperar passar. Mas para a gripe tem um remédio específico. Já era um começo. Minha mãe foi para nossa casa, nos recebeu com o almoço. Ajudou a cuidar da neta (e de mim), enquanto minha mulher tentava descansar um pouco para se recuperar da própria gripe e eu dava um jeito de ajeitar minha cabeça e trabalhar por algumas horas.

O remédio fez efeito, o catarro foi posto para fora. A febre se tornou mais rara e mais baixa. No dia seguinte, minha mãe podia voltar para casa. Na calçada, enquanto aguardávamos meu pai, conversamos. “Primeira gripe, é foda.” “É meu filho, não vai ser a última.”  A consciência de que uma dor é inevitável nem sempre basta para diminuir sua aflição. Cada sinal de retorno à normalidade da minha filha: um sorriso, um apetite, uma estripulia era festejado como se ocorresse pela primeira vez. Dias depois para comemorar sua cura, Marina virou todo o cesto de brinquedos sobre o seu corpo.

A prisão em “Godfellas” não parece ser um lugar tão duro. Claro que é um filme de Hollywood e aqueles personagens ocupam cargos privilegiados da máfia. Mas há um certo de ar de colônia de férias. Eles jogam cartas, contam piadas, fumam charutos, bebem vinho e uísque, preparam bifes gigantescos e macarrões com molhos intermináveis com o alho em tiras finíssimas cortadas com lâmina de barbear. Parece mais uma desculpa para aqueles homens ficarem entre si, longe de suas mulheres e filhos. Eles não sabem nada da vida.

 




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

BEM AMIGOS DO CINEMA BRASILEIRO

 



Quando eu era um jovem e intrépido universitário, há mais ou menos uns 15 anos, tive uma coluna num blog que se chamava “Crítica de cinema do Galvão”. Acaso o título não seja auto-explicativo o suficiente, desenvolvo por aqui. Eram resenhas de filmes publicadas por um Galvão Bueno imaginário. As críticas imitavam a verborragia, as expressões e o ufanismo invencível do narrador do tetra e do penta. Eram sempre variações de uma mesma piada. Eu pegava um filme estrangeiro festejado pela crítica e esculhambava, comparando a um similar nacional, que teria feito a mesma coisa, só que melhor.

Um dos meus textos favoritos comentava o filme argentino “Segredo dos seus Olhos”, vencedor do oscar de melhor filme estrangeiro de 2010.  Galvão, claro, ficou uma arara. “E argentino sabe lá fazer filme de ditadura que nem a gente? Por acaso, eles já botaram o Agostinho Carrara para sequestrar o embaixador americano com ajuda do Rui e da Vani?”  A referência era sobre o filme “O Que é isso companheiro?”, de Bruno Barreto, baseado no livro de Fernando Gabeira. 

Um drama tenso e bem executado sobre uma ousada ação da guerrilha durante a ditadura militar, que contava com algumas escolhas de casting pouco ortodoxas. Tinha Pedro Cardoso no papel de um guerrilheiro (Gabeira) e Lulu Santos como um delegado de polícia. Hoje um tantinho esquecido, o filme concorreu ao Oscar, em 1998. Entrou na condição de favorito, com transmissão em clima de Copa mostrando os atores reunidos no Canecão. Pelo menos, rendeu um chilique anti-imperialista, ao vivo do Arnaldo Jabor, que comentava o evento na Globo. Não foi dessa vez, Brasil.

Ingressei na faculdade de Comunicação Social pela UnB em 2006. Era um período de mudanças profundas no audiovisual. Quando eu entrei na faculdade, os alunos que estavam lá, sonhavam no dia em que filmariam em película. No meu último ano, os calouros que entravam faziam plano de carreira para serem youtubers. O curso de audiovisual tinha um apego, para alguns: justo, para outros: exagerado, ao Cinema Novo. A coluna do Galvão foi inspirada em um professor que, ao ouvir os alunos reclamando da overdose de Glauber e Nelson Pereira dos Santos, costumava responder. “Vocês vão aprender mais assistindo a um filme brasileiro ruim, do que a um filme americano bom.” Ele, claro, era inglês.

Oficialmente, eu achava a frase absurda. Como estudar cinema sem “Cantando na Chuva”, “Pulp Fiction” ou “Poderoso Chefão”? Mas havia uma parte de mim que concordava. Afinal, toda paródia que se preze é, no fundo, uma homenagem sincera. Fui muito feliz nas madrugadas do Canal Brasil. Aprendi a ignorar as filmagens mambembes, as cenas de nudez inexplicáveis, os diálogos que pareciam dublados e que podiam oscilar entre a telenovela e o teatro de vanguarda. Apreciava as dores e delícias do nosso cinema, pelo simples fato de ser nosso.Porque nós somos o olhar de desespero tarado do Peréio, o sorriso de deboche da Leila Diniz, os cangaceiros giratórios do Glauber, o andar de tigresa da Sônia Braga, a bunda do José Wilker descendo o Pelourinho, cada um dos convidados do Baile do Bené, a Fernanda Montenegro catando feijão para o almoço do dia seguinte, o Grande Otelo recém-parido no chão da oca, gritando unhéee.

Domingo, durante a transmissão do Oscar, na torcida por Fernanda Torres e por “Ainda Estou Aqui”, pretendo reencarnar meu antigo personagem. Vou dizer coisas como: “Bem amigos do cinema brasileiro. Haja coração! Hoje, enfrentamos um velho adversário: a França. Após se cansarem de fazer filmes que mais parecem uma partida de futebol com 90 minutos de comentários ininterruptos do meu amigo Casagrande, os franceses foram ardilosos. Fizeram o que fazem sempre. Roubaram os talentos dos outros países para brigarem pela taça. Mesmo que Emília Pérez pareça mais uma trama requentada de outra Perez, a nossa Glória, eles chegam com pinta de favoritos. De um lado, temos Jacques Audiard e todo o poderio da Netflix. Do outro, o nosso Waltinho Salles, apenas um rapaz latino americano, sem din... Bem,  o resto da música não combina tanto assim. Mas eu confio na virada e na estrela solitária de Waltinho. E nossa Ferrrrnanda Torres. Irá desbancar as estrelas de Hollywood e sambar na apoteose do cinema, ao som do Rappa cantando Vapor Barato?”

Bora Brasil, que dessa vez o caneco é nosso. 


terça-feira, 26 de novembro de 2024

MINHA FILHA, MINHA AVÓ E MEIA DÚZIA DE FILÓSOFOS

No sábado, dia de finados, levei a minha filha para conhecer a minha avó. A mulher de 3 meses olhou para a mulher de 95 anos e ambas sorriram. Aquele sorriso era muito elementar e ao mesmo tempo um mistério. A mente da minha filha já é capaz de movimentar a boca para balbuciar pequenos sons,  fazer a mão segurar seu elefantinho de pano e sabe que quando chora mais forte é atendida mais rápido. Da mente da minha avó já desapareceram nomes, receitas, mágoas, histórias, rostos, fatos, normas, deveres.  Em compensação, os sorrisos aumentaram. Ela sorri para minha filha e minha filha sorri para ela. Por que? O que na mente delas provocava esses sorrisos sem razão?

No intricado percurso da história dos pensamentos, muitos defenderam a ideia de que a razão seria o elemento essencial do ser humano. Platão, filósofo grego amante de cavernas obscuras e diálogos luminosos, considerava a razão como a verdadeira natureza da alma, uma ponte com a nossa essência perfeita, nascida no mundo das ideias. Quando o ser e a razão não coincidiam, era culpa do corpo, essa fonte inexata de dor, desejo e ansiedade.  Seguir o caminho contrário era a missão da filosofia: alcançar a transcendência através da razão.

Dois mil anos depois de Platão, havia um soldado entediado, que estava farto de suas ideias. René Descartes servia numa cidadezinha alemã, esperando por uma batalha que não começava, quando decidiu se afastar do quartel após uma noite de febre e pensamentos confusos. Trancou-se no quarto de uma estalagem e resolveu que iria reconstruir toda a filosofia que existia até então. Começou a duvidar de tudo.   De tudo, mesmo, incluindo a própria realidade. Questionou por que aquilo que ele via não poderia ser obra de um demônio maléfico, capaz de criar uma ilusão de enormes proporções? Que certezas ele tem? O que ele poderia mesmo saber que existe? A primeira resposta que lhe trouxe satisfação foi o pensamento. Sua dúvida era um pensamento e esse pensamento existia. Se existia um pensamento, era porque deveria existir quem o pensasse. A razão era a prova fundamental da sua existência e, claro, a inspiração do seu slogan mais famoso: penso, logo existo. A partir dessa certeza inicial Descartes começou a construir o caminho para a sua filosofia, onde todo o conhecimento derivava da razão, base de todas as ações humanas.

Outros pensadores não partilhariam da mesma confiança no poder ilimitado da razão. Tanto Baruch Espinosa, um judeu de ascendência portuguesa, refugiado na Holanda, que conseguiu a proeza de ser perseguido por sua própria comunidade, como Immanuel Kant, um professor universitário prussiano que revolucionou a história da filosofia sem jamais sair de sua cidade natal, duvidavam do poder ilimitado da razão. Para eles, os seres humanos são, com frequência, governados por paixões. Parte da natureza, somos suscetíveis a essas forças violentas, como uma embarcação que fica no caminho das ondas, durante uma tempestade. Entretanto, haveria uma saída. Cultivar a racionalidade era o caminho para libertar a alma da prisão das paixões.   Escolher a razão era atender a principal vocação humana, alcançar a única liberdade possível. Entender a razão como um caminho a ser conquistado, influenciaria diferentes abordagens sobre a mente nos séculos seguintes, como a psicanálise de Freud e o existencialismo de Sartre. 

Hoje, o pensamento foi decodificado em pequenas ondas cerebrais analisadas por neurocientistas.  Com a inteligência artificial, já se discute a razão para além da vida humana, enquanto uma vida humana sem razão continua a parecer insuportável. Recentemente, o filósofo e poeta, Antônio Cícero, ao optar pela eutanásia, antes que uma doença degenerativa consumisse sua capacidade intelectual deixou uma carta de despedida: “não consigo mais escrever bons poemas, nem bons ensaios de filosofia.” Para ele, para muitos, uma vida sem razão não vale a pena ser vivida.

Minha filha abriu a boca e deu um grito suave. Minha avó beijou os seus pés. Sorriram com maior intensidade. Ficaram alguns minutos olhando uma para outra em estado de profunda felicidade. Por mais de dois mil e quinhentos anos, os filósofos viram na razão o ponto mais elevado do ser, o caminho para compreender a alma, a característica que nos define como humanos. Começo a procurar em outro lugar.


domingo, 1 de setembro de 2024

COMO ESCOLHER UMA CANÇÃO DE NINAR



Logo nos primeiros dias, em uma impressionante lição de humildade, o pai descobre que é um corpo estranho. Para o bebê, há a fonte da vida, o centro primordial de acalanto, a ponte com tudo o que se conhece do mundo, o sentido final da existência. Isto é, evidentemente, a mãe. O pai, com sorte, é o seu acessório.

Como todo bom acessório, é fundamental que o pai descubra maneiras de ser útil. Ele deve incorporar o seu canivete suíço interior e se desdobrar no maior número de atividades possíveis. Aprender a colocar fraldas que não vazam, enfiar mãozinhas, cada dia mais espertas, em mangas estreitas, esterilizar utensílios, coordenar planilhas de amamentação, fiscalizar o paradeiro de bicos de silicone. Além de toda a sorte de tarefas domésticas, que, espera-se, ele já sabia executar antes de se tornar pai.

A rotina de acessório também tem seus momentos de glória. Intimado a carregar sua cria, o pai sente o bebê adormecer, ouvindo a batida do seu coração. Isto dura mais ou menos trinta segundos. Serão os melhores trinta segundos da sua vida.  Até que o próximo choro começa. E aí vem um grito, digno de Munch, vocalizando todo o desespero que um ser pode sentir. E as mãozinhas que tentam se afastar do seu corpo, a todo o custo. Freud poderia ter escrito um livro inteiro sobre o desamparo paterno, se tivesse alguma vez, largado o charuto, para segurar seus rebentos.

Assim, o pai descobre que irá fazer tudo o que está ao seu alcance, para que esses trinta segundos possam durar um pouquinho mais. Ele reza, troca o bebê de posição, aprende a dar o leite materno em uma colherinha anatômica, desenhada pela Nasa. Tenta se aperfeiçoar na arte de escolher canções de ninar, mesmo alertado pela ciência pediátrica, de que no primeiro mês de vida, o bebê não compreende uma única palavra.

Mas quem sabe, o bebê não entenda as entonações? Pensa o pai, esperançoso. Os sentidos ocultos que colocamos nos versos, sem perceber. Não seria essa, afinal, a linguagem anterior, que os poetas querem despertar? Não é essa a tarefa dos compositores? Escolher palavras, que transcendam a si mesmas, quando entoadas em canções. 

Na dúvida, escolho um samba enredo antigo da Portela (para marcar minha posição minoritária, já que a criança tem mãe, avô, avó e madrinha mangueirenses), “O Mundo Melhor de Pixinguinha”. Desacelero o andamento e canto apenas o refrão para minha filha. “Pizindin, Pizindin, Pizindin. Era assim que a vovó, Pixinguinha, chamava. Menino bom na sua língua natal. Menino bom que se tornou imortal. A roseira dá rosa em botão. Pixinguinha dá rosa canção. E a canção bonita é como a flor. Que tem perfume e cor.”  Melhor que Tutu Marambaia!

Ou aproveito que você nasceu leonina e canto. “Gosto muito te de ver leãozinho, caminhando sobre o sol...”  Ou, mesmo, arrisco composições próprias, como a “melô da foca fofoca”, ou, nos dias mais difíceis, o “pacotinho de brabeza”. Nessa hora, o pai delira um pouquinho. Imagina que inventou a nova galinha pintadinha e vai poder pagar todos os seus estudos, com que vai receber de direitos autorais.  

Também volto para minha infância, para perto do mar de Angra, que inspirou o seu nome, Marina. E canto, bem baixinho, o “Hino do Revolucena”, grupo de teatro de rua, da qual fizeram parte minha mãe, meu pai e meu tio. “Nem vento, nem temporal, nos impede de entrar em cena. Senhor e nem senhora, nos apavora. Estamos, a todo vapor, tocando nosso barco com muito amor. Vamos estender nosso poema, o nosso barco é o Revolucena.”  Ou o “Semba dos Ancestrais”. Eu sei que a música é do Martinho, mas conheci pelo PC e em algum lugar da minha cabeça sempre será do PC. E para acalmar o seu choro, para me acalmar durante o seu choro, digo, como numa reza. “Podes crer, no axé dos seus ancestrais. Podes crer no axé.”

O pai logo percebe o óbvio, que escolhe canções, mais para a si mesmo, do que para a sua filha. Então, desprovido de culpa, ele começa a cantar “O Caderno”, do Toquinho.  É uma poderosa metáfora da paternidade (também um jingle de um comercial de lápis de cor), em que o pai aparece transfigurado na figura de um caderno, prestes a ser usado pela primeira vez. Tudo cabe naquela canção. A vontade de estar sempre presente. “Sou o que vou seguir você dos primeiros rabiscos até o be a bá”; a pretensão de ser o melhor amigo da filha: “Serei de você, confidente fiel, se teu pranto molhar meu papel” e até o medo de um dia ser esquecido: “só peço a você um favor se puder, não me esqueça num canto qualquer.”  

Mãe corre aqui. O pai começou a chorar mais que a criança.


quarta-feira, 24 de julho de 2024

UNDIÚ (parte 2)

 



Dinorah era professora e uma das melhores percussionistas do Recôncavo Baiano. Seus olhos faiscavam toda vez que discutia sobre música. Podia permanecer por horas, indo e voltando no mesmo assunto, até que a outra pessoa concordasse com ela, como se ensinasse um toque simples para um aluno teimoso e ruim de ouvido. Ligou o Spotify na caixa de som e pôs: 

Undiú. 

Logo, a voz pequena e as batidas do violão do João Gilberto ocuparam todo o espaço do quarto. Repetiam-se em movimentos circulares, que seriam parecidos com as ondas do mar, se as ondas do mar pudessem apenas banhar os corpos sem jamais afogar ninguém.  Dinorah dizia:

—  O João Gilberto aprendeu ioga, no final da década de 1960, quando ele morava no México. Foi iniciado por uma discípula do guru indiano Yogananda. João leu o livro de Yogananda, “Autobiografia de um Iogue” e se apaixonou. Ele já era um iogue, antes de conhecer qualquer coisa sobre a ioga.

Eu pus o copo do lado da cama e me inclinei com mais profundidade nos travesseiros, na posição do cachorro deitado. Tocaram as músicas:

Falsa Baiana

Estate

Entre uma canção e outra, Dinorah continuava a falar:

—  Você sabe o que quer dizer aquele OMM... de quem medita? É o ruído do espaço vazio, um som anterior ao tempo, presente em todos os outros sons. O bim bom, do violão de João Gilberto é o OMM da música brasileira. A batida que contém todos os ritmos que vieram antes dela. Um big bang feito de trás para frente. Você entende Adamastor?

Eu sei que vou te amar

—  Mas e o canto?

Pronunciei a frase com os olhos fechados, quase sem me dar conta do que dizia, como se as palavras viessem de algum outro lugar. Dinorah nem reparou.

—  Ele canta como alguém que medita. Melhor, como alguém que respira durante a meditação. A música e as palavras passam por ele, como se ele não estivesse lá. 

Louco 

— Você reclamou da ausência do significado das palavras.  Vamos pegar outro artista como exemplo. Bethânia, só pra continuar na Bahia. Cada palavra que ela canta tem um peso próprio. O verbo ganha carne e drama, reza e tesão.  “Foi tudo tão de repente. Eu não consigo esquecer.” É uma frase qualquer. Mas com ela vira uma história de amor enlouquecida, cheia de vida e angústia. A palavra se transforma em Bethânia. Com o João acontece o contrário. Se uma canção pudesse existir sem a presença do ser humano, seria assim...

É preciso perdoar

— ... a palavra só tem um significado possível. O significado do som.

Os antigos vedas indianos ensinavam que através do sonho era possível alcançar um entendimento superior ao da consciência. No sonho, livre das ilusões da matéria, o ser poderia se perceber mais próximo da sua verdadeira natureza, inseparável da natureza divina. Dentro do quarto, uma onda recuava e voltava, em um mesmo ritmo. Era guiada pelo som de mil tambores. Os tambores viraram um só, depois, perderam a substância. Transformaram-se numa batida sem tambor. A onda cobriu todo o meu corpo. Mas o mar, já não era mar, era ar. O ar que estava dentro de mim era o mesmo que o ar que estava fora. Então, acho que compreendi o que Dinorah queria dizer. 

É uma pena estar prestes a acordar. 


Leia: Undiú (parte 01)

UNDIÚ (parte 01)

 




Ela gostava de falar, quando meus olhos já estavam fechados. Desconfiava que não era apenas pela diferença entre nossos horários de sono, óbvia após poucas noites dormindo juntos. Eu adormecia logo depois da meia-noite. Ela seguia zanzando pelo quarto, entediada ou ansiosa, bebendo o resto da garrafa de vinho, até cair num sono profundo às três ou quatro horas da manhã. Mas não creio que seja essa a razão para que ela desejasse falar tanto de madrugada. Acho até que, no fundo, Dinorah preferia que eu não respondesse. Queria mesmo era que eu permanecesse dormindo. Pensava que assim poderia influenciar meus sonhos com as suas palavras e a sutil melodia da sua voz. 

— A-da-mas-tor.

Ela adorava pronunciar cada sílaba do meu nome, realçando tudo o que ele tinha de estranho. Adamastor, o gigante que se revoltava contra Zeus e era transformado num rochedo horrendo. Meu pai era um grande fã de mitologia. Pena nunca ter paciência para ler as histórias até o final.

— O que foi?

— Por que você não gosta de João Gilberto?

— Por que você acha que eu não gosto de João Gilberto?

Retruquei sem abrir os olhos, nem pronunciar direito as palavras, rezando para que aquela conversa tivesse vida curta. Mais eficaz do que minhas preces, seria não ter respondido com outra pergunta. 

— Lembra quando meu Spotify estava tocando e o algoritmo escolhia várias músicas do mesmo artista. Teve Tim Maia Tim Maia Tim Maia. Gal, Gal, Gal. Bethânia, cinco vezes.  Quando, entrou João Gilberto você trocou a música. Foi a única vez que você se levantou.

— Tive vontade de ouvir Martinho da Vila. 

— Mas o que você não gosta no João Gilberto?

— Nada, ué. Só queria ouvir outra coisa.

— Tem certeza? Não estou te recriminando. Só curiosidade mesmo.

Já de olhos abertos, recostado no travesseiro, segurando um copo, que acabava de ser preenchido com cerveja, me vi forçado a pensar naquela questão, pela primeira vez. Por que, cacete, eu não gostava do João Gilberto? 

— Acho que ele canta todas as músicas do mesmo jeito

— Como assim?

— Parece que o está na letra não importa. Tanto faz se é o “pato vinha cantando alegremente” ou “eu sei que vou te amar por toda a minha vida”. Ele canta igual, como se o sentimento das palavras não existisse.

— Eu discordo, mas entendo. É uma opinião bem previsível.

— Você parece ofendida. Não sabia que gostava tanto de Bossa Nova.

— Eu não gosto de bossa nova. Gosto do João Gilberto.

— Qual é a diferença?

—  A bossa nova queria fazer um som limpinho e confortável, bem coisa de carioca. 

Respondi a ofensa com um agrado e comecei a cantarolar “Baiana” do Emicida pra ela. Dinorah prosseguiu:

— O João Gilberto não é nada confortável. Ele inventou um jeito meio hindu, meio budista de tocar samba que só dá certo porque é estranho. 

—  Por isso que ele faz tanto sucesso no Japão?

—  Por isso que você acha que ele canta todas as músicas do mesmo jeito. Porque presta atenção nas coisas erradas.


Leia: Undiú parte 2


sexta-feira, 12 de julho de 2024

AS MORTES E OS BRASIS DE ASSIS VALENTE

 




O que os versos: “Brasil, esquentai vossos pandeiros/ iluminai os terreiros/ que nós queremos sambar”;  “cai cai balão/ aqui na minha mão”; “beijei na boca de quem não devia/peguei na mão de quem não conhecia/ dancei o samba em traje de maiô/ e o mundo não se acabou” e “eu pensei que todo mundo  fosse filho de papai noel”  têm em comum? Ora, todos saíram da mesma cabeça, são filhos do mesmo letrista, o baiano Assis Valente.

Dá até para dizer com uma dose de lirismo e outra de cinismo, que o Brasil, ou pelo menos a versão mítica do país, estava tão presente no coração de Assis, que quando ele quis se despedir da vida, escolheu um símbolo nacional como palco. No dia 13 de maio de 1941, Valente se atirou do alto do Corcovado, de costas, olhando nos olhos do Cristo Redentor. Não morreu.

A maior parte de sua obra foi composta nas décadas de 1930 e 1940. Coincide no tempo e no espírito com a primeira era Vargas, época em que a formação de uma identidade nacional, da criação de uma resposta unificada para a pergunta “o que significa ser brasileiro?” era uma obsessão para sociólogos, artistas, escritores, além de todo o departamento de propaganda do Estado Novo.

A ideia de uma brasilidade, festiva, mestiça e potente era, claro, um mito como são todas as ideias de nação, todas as ideologias. Mascarou (mascara?) muitas dores. Produziu (produz?) muitas belezas. Entre elas, as composições de Assis.  Está presente nas músicas infantis, tão repetidas que parecem de autoria coletiva, como a junina “Cai cai balão” e a natalina “Boas Festas”. É a marca principal dos seus belos sambas-exaltação, como “Brasil Pandeiro” e “Alegria”

Talvez seja ainda mais forte nas músicas que querem apenas ser crônicas de sua gente, de sua época.  Histórias saborosas, vívidas e profundamente brasileiras, como a da mulher (ou talvez do homem) que cai na farra com quem não devia, quando escuta o anúncio do fim do mundo em “E o mundo não se acabou...”. Da mãe solteira do morro que enfrenta o olhar inquisidor do agente do censo, em “Recenseamento”. “Quando viu minha mão sem aliança/ e olhou para a criança que no chão dormia/ perguntou se meu moreno era decente/ se ele era do batente ou era da folia.”  E ela responde, com altivez, que seu homem era os dois, fuzileiro e batuqueiro, para, em seguida, enumerar tudo que o Brasil lhe deu: o Pão de Açúcar, o céu azul, os feriados. Há também o pai de família de “Camisa Listrada”, sério, com anel de doutor, mas que durante o carnaval “se fantasia de Antonieta e vai dançar no Bola Preta até o sol raiar”, com a camisola da esposa e uma saia feita da cortina de veludo arrancada da sala de casa. 

(Aliás essa música me lembra muito o meu avô, que sempre sumia durante os quatro dias de carnaval e destruiu o vestido de noiva da minha avó, ao usá-lo, no Bloco das Piranhas, por anos seguidos. A lenta desaparição do vestido de noiva no corpo do marido, ao longo de vários carnavais, daria com uma pitada distorcida de imaginação uma bela crônica de Nelson Rodrigues.)

Se a obra de Assis Valente continha uma brasilidade idealizada, sua vida foi marcada por uma experiência bem mais brutal de país. Ele nasceu em 1911, em Santo Amaro, na Bahia de “mucama com feitor”, como cantaria outro santo-amarense mais famoso. Seu pai era um homem branco, de classe média e a mãe, uma mulher negra, que trabalhava como empregada na casa da família. A união não era reconhecida e o menino era rejeitado. Na infância, enquanto recitava poemas na feira, foi raptado e oferecido a uma família rica, “por ser muito inteligente”. Era tratado como empregado. Anos depois, conseguiu reencontrar sua antiga família. O tio, dentista, o ensinou a profissão de protético, a ser artesão das próteses dentárias.  Exerceu o ofício por toda a vida. Jamais se sustentou apenas com a música.

Chegou ao Rio, em 1930, e foi acolhido por Heitor dos Prazeres e outros sambistas da Mangueira. Começou a mostrar suas canções e a ser gravado.  Virou um dos compositores favoritos de Carmem Miranda. Casou-se. Mas, de hábitos extravagantes, vivia cheio de dívidas e era viciado em cocaína. Infeliz no casamento, era atormentado, alguns diziam por paixão não correspondida por Carmem Miranda, outros pelo esforço de manter oculta sua paixão por outros homens. Sua filha tinha dois meses, quando ele cometeu o desatino de se jogar do Corcovado. Foi salvo pelas árvores. Ou, como ele gostava de dizer, pelo olhar do Cristo.

Não a toa, nas canções de Assis, quase sempre, há uma sombra de tristeza pairando sobre a alegria. É a iminência da destruição que libera o indivíduo para realizar os seus desejos em “E o mundo não se acabou...”. A tristeza do povo é o que faz a gênese do samba em “Alegria”, “minha gente, era triste e amargurada/inventou a batucada pra deixar de padecer”. E sabe-se lá o que vai acontecer com a nossa música, depois que “o Tio Sam aprender a tocar pandeiro para o mundo sambar” em “Brasil Pandeiro”. Até em “Boas Festas”, canção de natal,  Papai Noel, ou “com certeza já morreu”, ou “então, felicidade, é brinquedo que não tem.”

A conciliação entre esses dois impulsos opostos, o de lutar contra o apagamento de dores, passadas e presentes, e encontrar forças para vivenciar alguma forma de alegria coletiva, marca até hoje as disputas entre as diferentes formas de brasilidade. Uma tensão que, às vezes, pode ser insuportável. Dezessete anos depois da tentativa de suicídio no Corcovado, Assis Valente engoliu veneno, diluído em guaraná e morreu em um banco de praça na Glória.    Quem sabe a gente tem um pouquinho mais de sorte? Salve o prazer, salve o prazer... 

quinta-feira, 27 de junho de 2024

UM PAGODE AOS PÉS DA ESFINGE



Uma vantagem não muito comentada da vida contemporânea é poder se deliciar com as maravilhas da arqueologia, sem precisar encarar junto o sol sem misericórdia do deserto, a umidade do fundo das cavernas, ou as maldições e armadilhas dos templos ancestrais. Hoje, para ler poemas de amor escritos há mais de 3000 anos, em hieróglifos egípcios, basta uma tarde ociosa no google.   

Os poemas de amor do antigo Egito estão entre os primeiros textos conhecidos da humanidade. Você pode encontrar um PDF com os versos traduzidos para o inglês e algumas notas explicativas, com alguma facilidade e de graça. (Exemplos aqui e aqui). Ao todo são sete poemas, que falam de corações palpitantes, seios que roubam o brilho do sol, dedos que são como flores de lótus, uma semana de saudades que adoece o corpo.  Os versos permaneceram na escuridão por mais de 30 séculos. Até que na década de 1930, foram revelados em papiros encontrados nas escavações do sítio arqueológico de Deir Almedina, 600 quilômetros ao sul de Cairo.

As escavações em Deir Almedina provocaram uma pequena revolução nos estudos sobre o antigo Egito. O local abrigava uma antiga vila de artesãos e operários das pirâmides. Até então, a maioria dos vestígios encontrados do período era dos membros da elite, os faraós enterrados no Vale dos Reis, a alta nobreza, os grandes sacerdotes. Pouco se sabia sobre a vida do povo. Os objetos, cartas e documentos de Deir Almedina apresentaram registros importantes sobre a rotina de trabalho, a vida social, a alimentação e as formas de amar do egípcio comum, gente como a gente.

Quer um exemplo? Os historiadores acreditam que os poemas de amor eram um “registro escrito de versos mais populares em sua forma oral, entoados com acompanhamento de instrumentos musicais”. As poesias dos papiros, na verdade, eram a cópia de canções famosas. Músicas que faziam sucesso nas grandes festividades, ou nas resenhas improvisadas depois de um dia trabalho, regadas a muita cerveja (sim, a bebida já existia). As canções facilitavam os encontros e as declarações apaixonadas.  Decerto, ajudaram milhares de histórias de amor a se desenrolarem, tendo as dunas do deserto como testemunha. A  combinação de pé-na-areia, cervejinha e versinho romântico perto do ouvido, faz sucesso há muito mais tempo do que você imagina.

Alguns dos versos do antigo Egito poderiam fazer bonito no Beco do Rato ou no samba da Pedra do Sal.  Tem sofrência: “Sete dias que não vejo o meu amor/ E a doença me invadiu/ Sinto pesar os braços e as pernas/ Meu corpo se esqueceu de mim.” Só faltou completar com um “me ajudar a segurar essa barra que é gostar de você” ou com “vem logo, vem curar teu nego que chegou de porre lá da boemia”. Também tem promessas: “Vou fazer um festival pra minha deusa/ pra que aquele homem possa me ver passar, plena/ no meio da noite mais bonita”. Diz se não dá pra fazer um par com aquela do Zeca, “eu não sei se ela fez feitiço, macumba, ou coisa assim/ só sei que estou bem com ela e a vida é melhor pra mim”?  

E  claro, não podia faltar aquela cantada inspirada. “Mulher sem rival/ A mais bela entre as belas/ Parece a primeira estrela/ Que anuncia um ano de felicidade”. Repare na semelhança com o Almir Guineto de “tem veneno o teu perfume/ que me faz o teu refém/ teu sorriso tem um lume/ que nenhuma estrela tem.” 

Minha tradução deixa a desejar e as rimas egípcias se perderam com o tempo, mas o sentimento permanece o mesmo. Aos pés da esfinge, o pagode já rolava solto! 


quarta-feira, 19 de junho de 2024

HISTÓRIA DE UMA MALA


 

Basta uma breve leitura do relato de viajantes experimentados ou uma revisão atenta das normas técnicas da ANAC para perceber que há uma correlação clara entre o tipo de bagagem que uma pessoa escolhe carregar e a sua idade. Meus 35 anos de pai de família tardio e o provável frio de Montevidéu, que fazia de um casaco pesado um acessório imprescindível, eram razões suficientes para eu olhar para minha velha mochila vermelha de 45 litros com alguma desconfiança.

Era uma veterana, que já esteve em Paris e na Amazônia. Guardava resquícios da areia laranja do Saara e da esbranquiçada de Uyuni. Coube em armários de hostels suspeitos, chãos de ônibus, trens marroquinos, compartimentos de bagagem de companhias aéreas de baixo custo. Mas para 8 dias e 2 cidades, de uma viagem tranquila, de casal, sem deslocamentos mirabolantes, achei melhor recorrer ao conforto prático de uma mala de rodinhas de porte médio.

Em cima do armário de casa, havia exatamente o que eu precisava. Porém a mala necessitava de reparos. Procurei na internet um local apropriado para o conserto. Um deles me atraiu pela proximidade do bairro ou pela sonoridade do nome: “Málaga Malas”. Pela descrição,  também vendia malas usadas. A informação me preocupou um pouco, dado o evidente conflito de interesses entre consertar e revender a mesma coisa, mas decidi arriscar.

Fiz um alongamento curto e convenci minha rainha, a me acompanhar numa caminhada até a Glória.  A “Málaga Malas” fica numa rua sinuosa, em uma galeria semi-residencial, acompanhada de outros estabelecimentos, igualmente perdidos no tempo, como uma revenda de ouro e uma gráfica que restaura livros. Fomos atendidos pela proprietária, uma senhora, de traços caboclos e voz a rouca de décadas acumuladas de cigarro, que nos deu maiores detalhes:

__ Temos convênio com as principais companhias aéreas do mundo. KLM, Air France, American Airlines. Vocês vão em qual?

Notei uma ponta de decepção no seu rosto, quando respondemos que viajaríamos de Azul, mas ela soube disfarçar bem.    Analisou os defeitos da mala, deu o prazo e o preço, bem razoáveis. Disse que era preciso deixar um sinal, para garantir o serviço. Complementou:

 __ Pagamento só em dinheiro.

Enquanto isso, minha mulher se interessou por uma mala de bom aspecto, cujo preço era um terço do valor cobrado por uma nova. Seja porque os consertos e as vendas seguiam regras diferentes ou porque minha companheira aparenta ser uma pessoa bem mais atualizada do que eu, agora havia uma informação nova:

__ Aceitamos pix. 

__ Vamos levar amanhã, quando viermos buscar a outra.

__ Se você quiser, tem que ser hoje.

__ Por que?

__ Aqui, as coisas mudam muito rápido. De tarde, isso pode ser desmontado pra fornecer peça de reposição.   Essa mala, por esse preço, só agora.

Após alguns minutos de uma confusão com os comprovantes e a forma correta de adicionar contatos no whatsapp, o negócio foi fechado. 

__ Vocês ainda vão querer consertar a outra ou já vão deixar aqui de vez?

Confirmei o reparo. Puxei umas notas amarfanhadas do bolso da bermuda e paguei o sinal.  Retornamos no dia seguinte. A dona escutava pelo rádio (ou talvez por uma caixinha de som conectada a internet) o programa de um coach psíquico que ensinava métodos variados de energização.    Demorou a notar nossa presença. Talvez estivesse ocupada, mentalizando alguma coisa. Nos entregou a mala em perfeito estado.  Comprovamos a qualidade do serviço, deslizando a danada pelas calçadas irregulares que marcam a paisagem do Catete.

Na véspera do voo, arrumei a mala com camisas e cuecas limpas para todos os dias, um casacão, três agasalhos, dois livros, uma calça jeans e um par de tênis extras.  Contemplei o amplo espaço que me restava. No horizonte, se abria, uma nova forma de viajar.


quarta-feira, 12 de junho de 2024

AINDA UM BLOG?

 


Blogs e fitas cassete têm muita coisa em comum. São mídias esmagadas pela importância de outras maiores, do passado ou do futuro. Uma cassete não possui aquela seriedade bela dos objetos de museu que você encontra em um disco de vinil. Também não é imaterial, ilimitada e gratuita (ou quase gratuita) como a música que chega através da internet.  Um blog não é um livro. Um blog não é um tuíte (tudo bem, nem um tuíte é mais um tuíte). Enfim, são dilemas parecidos.

Elos perdidos, em geral, são formas embrionárias, que antecipam os desejos e as necessidades do futuro, sem atendê-los por completo. A fita cassete trazia uma música mais barata e que ocupava menos espaço, mas sua maior inovação era abrir uma possibilidade para a interação. Com uma fita virgem, era possível gravar músicas de diferentes discos ou CDs. Com a adição de um microfone, registrava-se a própria voz.  As fronteiras se apagavam, o amador e o profissional se misturavam no mesmo espaço.  Uma canção dos Beatles, o ronco do seu tio, Beethoven, um papagaio assobiando, Cartola, o que você pensa sobre a vida. De alguma forma, o impulso que levaria os nascidos no final do século XX a povoar o Youtube e os do início do século XXI a serem estrelas do Tik Tok já estava lá.   Só que com menos testemunhas.

Os blogs foram os primeiros sinais bem-sucedidos da cultura do eu que marca a Internet (e todo o resto da sociedade) até hoje. A ideia de um diário aberto para o mundo, tinha de nova o que tinha de simples. Seria a democratização da escrita, a quebra da hierarquia entre as opiniões, um veículo para a partilha de sentimentos, a válvula de escape para uma necessidade coletiva de expressão individual. Como tudo isso desembocou em correntes reacionárias no whatssapp, discussões sanguinárias no facebook e reality shows personalizados no instagram, não tenho a menor ideia.

Com a ascensão das redes sociais, os blogs perderam a importância. O novo formato, com seus likes, comentários e linhas do tempo, era bem mais eficaz em alimentar a ilusão de ser ouvido naqueles que tinham tanta urgência para dizer alguma coisa. Os que permaneceram, foram absorvidos pelas mídias anteriores. Passaram a escrever para sites, portais, a integrar a versão digital de jornais e revistas. O blog independente, individual se tornou um anacronismo, quase romântico. Algo deslocado de função, cuja existência é difícil de explicar, como as fitas cassete esquecidas em uma estante.

Ou essa pode ser apenas uma parte da história.  Há quem diga que os elos perdidos não carregam algo que desapareça com a sua extinção. Como as caudas da última vértebra, que somem nos embriões humanos. Os blogs podem ser ainda o espaço ideal para os formatos e as intenções de alguns textos. Efêmeros demais para os livros, lentos demais para as redes sociais. A janela perfeita para o voo curto de uma crônica. Ou para uma opinião, que quer parecer mencionada num bar e não proferida com alto falante em praça pública.  Um blog pode ter a medida exata da despretensão para uma história de viagem, a descrição de uma cena na rua do Catete, o comentário dos efeitos de um filme, um livro ou um jogo do Botafogo, o relato da maneira sutil que a minha mulher tem de me mandar parar de tagarelar, segundos antes dela adormecer?

Talvez não. Quem sabe, eu só quero relaxar após o expediente, com as fitas cassetes que moram na minha estante, como o japonês de meia idade do último filme do Win Wenders?




O PRIMEIRO NATAL?

  Para o rigor dos fatos, não é assim o primeiro, afinal Marina já marcou presença na ceia de 2024. Mas se aquele era, sem dúvidas, o nosso ...